O Dia Mundial do Rock é, como diria um certo presidente brasileiro, “uma jaboticaba”. Criado a partir do Live Aid, megaevento que realizado simultaneamente em dois países — Estados Unidos e Inglaterra — no dia 13 de julho de 1985, e cuja arrecadação foi utilizada para o combate contra a fome na Etiópia, ele só é comemorado no Brasil, por conta da obstinação de algumas emissoras de rádio brasileiras.
E por uma ironia do destino, o Live Aid não foi transmitido pela mídia nacional: a Rede Globo, que detinha os direitos da transmissão, optou por exibir um compacto dos melhores momentos após o Fantástico.
O público brasileiro, aliás, possui uma relação um tanto disfuncional com essa combinação de blues, gospel e música country, batizado com um nome de conotação sexual — em termos chulos, ele poderia ser definido como “rala e rola”.
Recentemente, a Crowley Broadcast Analysis do Brasil e a Pró-Música, associações que aferem as audiências das rádios e das plataformas de streaming, lançaram o relatório das canções mais populares do primeiro semestre de 2026.
Com exceção de uma guitarra aqui, outra acolá, utilizada nas músicas do universo sertanejo, o gênero americano não figura nem entre as 100 mais populares do país.
Mas já que estamos no terreno das citações, Rita Lee (1947-2023), nosso símbolo máximo de rock’n’roll, já cantou que “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido” (em Orra Meu, de 1980, homenagem aos roqueiros da Pompéia, bairro da zona oeste de São Paulo). O rock raramente foi hegemônico, passou por momentos pontuais de popularidade.
A jovem guarda, nos anos 1960, era um programa de TV dedicado aos novos ídolos da juventude; a tropicália, no mesmo período, adotou a guitarra elétrica em seu discurso de contestação, e a primeira edição do Rock in Rio, no ano de 1985, chamou a atenção das companhias de disco para um público interessado em canções de protesto forradas por altos decibéis.
Por outro lado, esses “poucos, felizes poucos bando de irmãos” (no campo das citações, vamos de William Shakespeare) são uma massa interessada. Numa pesquisa de 2024 da mesma Crowley, ele tem 0,42% na preferência do público nas rádios e o IBOPE apontou que ele tem 10% do Target Group Index — que perfila as marcas, atitudes, hábitos e comportamento do consumidor.
O público, contudo, é fiel. Há pelo menos dois grandes festivais dedicados ao rock pesado — a saber, o Monsters of Rock e o Bangers Open Air, ambos realizados em São Paulo — que atraem um público interessado.
Veteranos da cena pesada como Iron Maiden, Slayer e Deep Purple terão passagens por aqui em 2026 e o Rush, lendário trio canadense, marcou seu passaporte de volta ao país em janeiro de 2027.
A mídia alternativa americana aponta um retorno do rock às paradas de sucesso, após anos de hegemonia do hip hop e da soul music urbana. A Substream, publicação online dedicada ao universo roqueiro, aponta que a geração Z tem descoberto o gênero através de vídeos do TikTok, com preferência para o chamado classic rock, nu metal (combinação de heavy metal, hip hop e música eletrônica) e rock alternativo.
Outros fatores que ajudam nessa popularidade são o crescimento da participação desse estilo de música em festivais e uma onda de nostalgia por conta do público mais jovem.
O “banzo musical” dessa geração coincide com ótimos lançamentos dos chamados dinossauros do rock. Podemos citar, por exemplo, três deles.
Paul McCartney, do alto de seus 84 anos, lançou The Boys of Dungeon Lane, seu melhor disco em décadas – um olhar sobre a sua juventude em Liverpool, traduzido em baladas, rocks vigorosos e até um namoro na psicodelia.
Os Rolling Stones, de Mick Jagger e Keith Richards, que fazem 83 anos ainda em 2026, soltou Foreign Tongues. Outros dois atos jurássicos dos anos 1970, Deep Purple e Yes, estão com alguns dos seus melhores discos em muito tempo. Splat!, do quinteto inglês de hard rock, é um trabalho rejuvenescido pela presença de um novo guitarrista — Simon McBride, de “apenas” 47 anos — e o oitentão vocalista Ian Gillan trocando os uivos do passado por um canto mais contido, porém ainda expressivo. A seção rítmica formada pelo baixista Roger Glover e pelo baterista Ian Paice, de 80 e 78 anos, respectivamente, ainda soa concisa.

Yes, veteranos do que se convencionou chamar de rock progressivo (uma mistura de rock e música erudita) traz, em sua formação clássica, apenas o guitarrista Steve Howe — 78 anos. Aurora, 24º disco do conjunto, tem o reforço de músicos na faixa dos 40, 50 e 60 anos que mantém a tradição do cancioneiro elaborado do conjunto — a começar pela delicada faixa título, composição de Howe e do “jovem” vocalista Jon Davison, de 55 anos e com os agudos em dia.
E não podemos esquecer de Peter Frampton, 76 anos e lidando com doença degenerativa que o faz tocar guitarra com dificuldade e cujo Carry the Light é de uma beleza ímpar com faixas inspiradas no blues e na música folk.
No campo dos roqueiros dos anos 1980 e 2000, o grupo irlandês U2 lançou o single Street of Dreams, um prenúncio de seu primeiro disco de material inédito desde 2017. O guitarrista e cantor Jack White, por sua vez, soltou Frozen Charlotte, álbum que o reconecta com sua verve roqueira.
Na mesma linha podemos destacar Pound of Feathers, dos Black Crowes, grupo comandado pelos irmãos Chris e Rich Robinson — vocal e guitarra, respectivamente, que mantém a tradição do rock sulista, mais calcado no soul e na country music do que nas outras regiões dos Estados Unidos.
E Jay Buchanan, vocalista dos Rival Sons, outro destaque da nova geração, fez de sua estreia solo, Weapons of Beauty, um dos grandes acontecimentos de 2026. Uma coleção de músicas inspiradas no gospel, folk e country music.

O sul americano ainda proporciona outro grande momento do gênero, Future Soul, da Tedeschi Trucks Band. São dois talentos incontestáveis: Susan Tedeschi é uma guitarrista e vocalista formada na escola do blues rock. Derek Trucks, seu marido, é um virtuose da guitarra, cujos solos unem o rock e o jazz.
O universo do rock traz ainda grupos interessantes, tanto na seara da música pesada quanto no alternativo. No primeiro, destacam-se Castle Rat, banda influenciada pelo metal dos anos 1980 e traz como destaque a guitarrista e vocalista Riley Pinkerton. O Lucifer, projeto da cantora alemã Johanna Platow revive a atmosfera pesada e macabra do Black Sabbath, lendas do rock de tonalidades abissais dos anos 1970.
O Brasil, por seu turno, traz novidades na cena do metal. Uma delas é Mi’raj, do vocalista Edu Falaschi. Um disco temático e que segue a cartilha do power metal, estilo que traz a união do heavy metal, da música erudita e do rock progressivo (sim, é uma mistureba, mas funciona).
Slave Machine é outro projeto da pauleira made in Brazil — é do grupo Nervosa, da guitarrista e cantora Prika Amaral. Na linha alternativa, ninguém supera a Supercombo, que lançou a segunda parte do projeto Caranguejo — cujo estilo vai de Black Sabbath ao rock alternativo americano e europeu. BUHR (ex-Karina Buhr) não é uma roqueira ortodoxa, mas fez de Feixe de Fogo um dos discos mais furiosos do ano.
E já que estamos no terreno das citações, vamos parafrasear a letra de um famoso samba. “Há muito tempo eu escuto esse papo furado/ Dizendo que o rock acabou / Só se foi quando o dia clareou…”
Feliz Dia do Rock para todos.














