Aperta que passa: os squishies são a obsessão de adultos estressados

Aperta que passa: os squishies são a obsessão de adultos estressados

Num mundo orientado à produtividade, um objeto lúdico representa algo que não exige performance

Quem tem filhos entre 7 e 15 anos conhece bem o que são os squishies: os brinquedos maleáveis recheados com gel, espuma e texturas diversas que viraram objeto-mania entre essa faixa etária. 

O fenômeno vai além da busca infantil por novidades. Em uma era caracterizada pela sobrecarga de informações, notificações ininterruptas e metas corporativas, esses objetos coloridos e  sensoriais se tornaram pequenos refúgios táteis. 

A busca por objetos macios, que retornam lentamente à sua forma original após serem comprimidos, oferece uma pausa analógica e uma sensação imediata de previsibilidade em um cotidiano imprevisível.

Do ponto de vista neurológico, a manipulação de texturas atua de maneira direta no sistema nervoso. Enquanto o cérebro lida com fluxos complexos de decisões e preocupações, as mãos realizam um gesto simples, ritmado e seguro. 

A pele, rica em receptores sensoriais de pressão e movimento, envia estímulos constantes que ajudam a ancorar a atenção no momento presente. "Tem uma coisa interessante acontecendo nisso: enquanto a cabeça está a mil, a mão recebe uma tarefa muito simples e previsível," diz Simone Nascimento, médica, palestrante, consultora em saúde mental nas organizações e membro do Comitê Consultivo Mente em Foco do Pacto Global da ONU. 

"A entrada sensorial pode funcionar como uma espécie de ponto de ancoragem para a atenção, trazendo parte do foco de volta para o corpo e para o momento presente. Determinados estímulos táteis podem modular a ativação do sistema nervoso autônomo e favorecer a redução da excitação fisiológica. Mas cabe um alerta: a literatura é muito mais robusta para toque e pressão em geral do que para o brinquedinho que está pendurado na mochila. Não temos evidência para afirmar que apertar um squishy desliga a ansiedade no cérebro."

Sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o toque intencional interrompe ciclos de pensamentos acelerados, trazendo o indivíduo de volta ao espaço físico imediato. 

"Quando manipulamos um squishy, oferecemos ao cérebro um estímulo no tato e de forma motora previsível," diz Bruna F. Vitorelli Gaiofatto, psicóloga, neuropsicóloga e coordenadora da Mental One. "Quando nos sentimos ansiosos, nossa atenção costuma ficar muito voltada para dentro: pensamentos acelerados, antecipações e preocupações. O contato com textura, pressão e movimento cria uma informação concreta no presente. A ansiedade está dizendo 'ameaça', mas o estímulo sensorial oferece outra informação: 'há algo real acontecendo aqui e agora'. Por isso o alívio pode aparecer rapidamente."

Os squishies e a vasta categoria dos fidget toys atendem a uma necessidade que persiste na era da hiperprodutividade: uma sensação de controle, baixa carga emocional e um momento de segurança contida. Com níveis globais de estresse elevados e o esgotamento profissional consolidado, a "microalegria" obtida ao manipular um objeto tátil atua como uma ferramenta simples para regular emoções e reiniciar a mente.

Esse estímulo tátil estende seus efeitos à capacidade de concentração durante o trabalho ou os estudos. O hábito de mexer as mãos — o fidgeting —, frequentemente encarado como distração, revela-se um mecanismo de autorregulação atencional, sobretudo para cérebros neurodivergentes ou sob estresse cognitivo. 

"O primeiro ponto é tirar o fidgeting da categoria de mania inútil," diz Simone. "Mexer a perna, girar uma caneta ou manipular algo pode funcionar como uma pequena atividade paralela que ajuda a regular o nível de estimulação necessário para permanecer em uma tarefa. Isso parece ser particularmente interessante em pessoas com TDAH, que apresentam maior procura por estímulos sensoriais. Contudo, se o objeto passa a ser o centro da atenção, ele deixa de ser ferramenta e vira concorrente."

Bruna concorda sobre a aplicabilidade do movimento na regulação do foco, ressaltando os limites do uso desses objetos. "Estudos no olhar do TDAH têm encontrado associação entre pequenos movimentos e melhor sustentação da atenção. Mas nem todo brinquedo serve para todos: movimentos curtos e repetitivos não são sinônimo de fidget toy, e alguns brinquedos podem ajudar uma pessoa e distrair completamente outra."

Paralelamente ao uso funcional, o ecossistema dos brinquedos de conforto gerou uma cultura de colecionismo que movimenta multidões e esgota estoques de marcas como Jellycat, Squishmallows e Pop Mart (criadora do personagem Labubu). 

A dinâmica de acampar em portas de lojas, monitorar lançamentos e participar de trocas ativa de forma intensa o sistema de recompensa cerebral através da dopamina. "Muitas vezes, querer é quase tão importante quanto ter," diz Simone. "A dopamina não é simplesmente a molécula do prazer, ela participa fortemente da motivação e da expectativa de recompensa. Quando você adiciona edição limitada, horário de lançamento e possibilidade de o item esgotar, transforma a compra em uma caça ao tesouro. Estudos mostram que neurônios dopaminérgicos respondem intensamente à expectativa e à incerteza." 

"O sistema de recompensa participa fortemente da expectativa", acrescenta Bruna Gaiofatto. "A pessoa fica se perguntando se vai conseguir ou qual personagem virá em uma caixa surpresa. Recompensas variáveis tendem a manter comportamentos de busca porque a dopamina participa justamente desse circuito de antecipação."

Apesar de proporcionarem pausas no uso de telas, esses brinquedos viralizam nas redes sociais. Essa relação paradoxal entre o brincar analógico e a validação digital ressalta o papel do pertencimento na construção da identidade contemporânea. "Saímos da tela para brincar com um objeto que provavelmente conhecemos pela tela," diz Simone. "As redes sociais acrescentam uma camada onde o brinquedo passa a ser também um marcador de pertencimento: 'eu tenho o que todos estão mostrando, faço parte do grupo'. O problema surge quando o prazer de brincar é substituído pela obrigação de mostrar ou ranquear."

Bruna observa essa transição pelo viés motivacional. "Existe algo positivo em manipular um objeto físico e trocar com amigos fora da tela, mas a experiência analógica hoje é atravessada pelo digital. Na TCC, olhamos para a função: estou comprando porque isso me diverte ou por medo de ficar de fora?"

Quando o ambiente de trabalho se transforma em uma sucessão de demandas de alta performance, objetos lúdicos oferecem uma ilha de gratuidade afetiva. 

Ter um urso de pelúcia na mesa ou um squishy na bolsa passa a ser uma busca por familiaridade e segurança em tempos incertos. "Acho perigoso patologizar um adulto porque ele tem um ursinho ou uma coleção na estante," diz Simone. "Vivemos cercados por metas, notificações e cobranças. Um bichinho macio e absolutamente improdutivo oferece o contrário: prazer sem currículo. Ele não melhora seu network, não bate meta e não manda mensagem cobrando nada."

"Objetos de conforto não pertencem exclusivamente à infância," diz Bruna. "Utilizamos objetos, rituais, comidas e lugares ao longo da vida para criar sensações de segurança emocional. Em rotinas orientadas à produtividade, um objeto lúdico representa algo que não exige performance."

No entanto, ambas as especialistas alertam para os riscos de utilizar a regulação sensorial como uma estratégia de anestesia contínua contra problemas estruturais, como ambientes corporativos tóxicos ou quadros de ansiedade crônica. 

"A questão clínica aparece quando o objeto deixa de ser mais uma ferramenta dentro de um repertório saudável e passa a ser a única forma que a pessoa encontrou para tolerar uma vida que está fazendo mal a ela," diz Bruna. "O sinal de alerta surge quando a pessoa passa o dia tentando sobreviver de microalívios — café, compras, fidgets, redes sociais — e retorna imediatamente para um estado de exaustão, acompanhado de irritabilidade, perda de energia e distanciamento emocional."

"Olho menos para o objeto e mais para a relação que a pessoa estabelece com ele," diz Simone. "Existe perda de controle? Existe prejuízo financeiro ou social? Se eu aperto um squishy durante uma reunião difícil para organizar a ansiedade, ele funciona como recurso. Se preciso comprar algo toda vez que estou angustiado para não entrar em contato com o que sinto, é hora de entender o que está pedindo tanta anestesia. Entre um boneco na bolsa e um adulto irresponsável existe um universo de possibilidades: autorregulação, pertencimento, nostalgia ou apenas um objeto que alguém achou irresistível."

 

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter