Desculpa qualquer coisinha

Desculpa qualquer coisinha

A desculpa portuguesa funciona como penitência de baixo custo, herdada da Inquisição sem a parte aborrecida de mudar de comportamento

Na pastelaria do meu bairro, numa terça-feira sem nada de emocionante (afinal é outono e felizmente Lisboa voltou à pacatez habitual), perdi a conta dos pedidos de desculpa que a senhora da minha frente distribuiu até conseguir levar para casa um bolo de arroz: ao empregado por apontar para a vitrine, ao homem de trás pela demora em achar as moedas, à porta por empurrá-la com o cotovelo e, já na calçada, a um cão que não teve a delicadeza de sair do caminho. Minutos depois, quando um rapaz esbarrou em mim e quem se desculpou fui eu, percebi que o dano estava feito.

É desse hábito que este espaço tira o nome e o assunto: a partir de hoje, escrevo aqui sobre os portugueses vistos por um brasileiro que cresceu entre eles e hoje compartilha o elétrico e a mesa do café com essa mesma gente. Quando eu disser “o português,” leia uma caracterização, o mesmo recurso de que a crônica brasileira sempre lançou mão para falar do carioca, do paulistano ou do mineiro: um tipo montado com traços reconhecíveis, que nenhuma pessoa reúne por inteiro e quase todas carregam em alguma dose, incluindo o brasileiro que mora em Lisboa há tempo suficiente, como acabei de provar na pastelaria. 

Ele se desculpa por tudo, com uma elegância tão enraizada que, no fim, quem se sente mal é você, por ter incomodado alguém que só estava ali a pedir perdão. Atravessa a vida na ponta dos pés, numa sala alheia onde nenhum móvel pode sair do lugar, e abre com “desculpe incomodar, mas” o e-mail que só existe para confirmar o horário que o destinatário escolheu. Na falta de erro, lamenta o tom, o atraso de cinco minutos ou o fato de ter pensado em voz alta, e o estrangeiro que convive com ele logo aprende a pedir licença ao corrimão, ao segurança e ao tapete da entrada.

O brasileiro recém-chegado costuma confundir essa cortesia com arrependimento, engano que dura até a primeira fila furada. A desculpa portuguesa funciona como penitência de baixo custo, herdada da Inquisição sem a parte aborrecida de mudar de comportamento: o sujeito passa à frente de todos, diz “desculpa, não reparei” e repete a manobra no dia seguinte; estaciona em segunda fila “só um minutinho” e volta a fazê-lo na esquina seguinte, absolvido por um protocolo que ninguém leva a sério e todos respeitam. Rezado o “desculpa”, a alma fica limpa até a próxima infração, e o perdão de quem ouviu conta como boa ação do dia.

Pedir desculpa, em suma, é a desculpa perfeita para não mudar, e nenhum neurótico obsessivo encontraria fórmula melhor: para quem a ideia de mudança é apavorante, o ritual de reconhecer a falha, repeti-la e confessá-la outra vez garante que tudo continue no lugar, com a consciência em dia. Curioso que o próprio ditado português ensine que desculpas não se pedem, evitam-se; por aqui, ninguém evita nada, e o estoque de pedidos nunca se esgota.

O país inteiro adotou o modelo. “Desculpem, somos só 10 milhões”, “desculpem, chegamos tarde à modernidade”, “desculpem, aqui ainda se assina papelinho à mão”: Portugal confessa cada defeito com tanta antecedência que a crítica chega desarmada, e o defeito, uma vez reconhecido, ganha indulto para durar mais 20 anos, impresso em azulejo e oferecido aos turistas em pacotes de três noites sob o nome de autenticidade. 

A versão de ataque, todo imigrante conhece de ouvido. Quando o português começa uma frase com “desculpa lá”, convém procurar abrigo, porque a raiva que ele guarda em frasco de conserva desde o terremoto de 1755 está prestes a ser aberta, e dela saem o vizinho barulhento de 1998, a troika, o gol sofrido na Euro 2004 e o Dom Sebastião que nunca voltou, até que tudo se encerra com o veredito “em Portugal não é assim”, proferido num lugar onde é assim, sem tirar nem pôr. Até o “desculpa” mais inocente, dito com a secura certa, pode significar “vê lá se prestas atenção”.

Nós, brasileiros, desembarcamos aqui com o vício oposto, o de quase nunca pedir desculpa, nem quando erramos, e de trocá-la por um “é que...” cheio de detalhes sobre o trânsito, a chuva e alguma tia morta pela milésima vez sempre que furamos um compromisso, de modo que o espelho também terá sua vez nesta coluna. De minha parte, aprendi a lição tão bem que inauguro o espaço do único jeito possível em Lisboa: adiantando meu pedido de perdão pelo que vou escrever sobre os portugueses, sobre os conterrâneos que dividem o balcão com eles e sobre mim mesmo, que já me desculpo ao tapete, com a certeza lusitana de que voltarei a cometer cada linha na próxima semana, e por isso, desde já, desculpa qualquer coisinha.

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