
Etiqueta da sauna: um guia de sobrevivência
Cada vez mais populares no Brasil, as saunas têm ganhado força como templos do bem-estar, da reconexão e do silêncio
Uma cena tem se tornado comum na Zona Oeste paulistana. Duas amigas marcam um encontro. O programa não é um jantar, nem um happy hour, quem dirá um cineminha: elas vão à sauna. Ficam em silêncio por 20 minutos, fechadas em um cubo de madeira a 90ºC, depois mergulham em água gelada e saem sentindo que fizeram algo útil para o corpo e para a amizade.
Para quem cresceu achando que a sauna era sinônimo daquele cômodo esquecido do condomínio — geralmente trancado, provavelmente com um placa “em manutenção” — ou algo que só se aproveita em hotel, isso pode parecer uma grande novidade. É e não é: essa onda quente tem começado a se reaproximar do Brasil de forma tímida nos últimos anos, ainda concentrada em bolhas específicas de São Paulo. Mas, apesar da pouquíssima conexão com a nossa cultura tropical, elas estão por aqui há quase um século. A primeira chegou de mãos dadas com a criação de Penedo, distrito no sul do estado do Rio de Janeiro fundado em 1929 por um grupo de imigrantes finlandeses.
Conta-se que, na Finlândia, o censo mais recente é de 3 milhões de saunas para uma população de 5,5 milhões — nada mal para os inventores do assunto, cuja tradição fincou raízes fortes no lado oriental do globo, com as suas variações regionais envolvendo o calor (os russos têm suas banya; os japoneses, os seus onsen, e os sul-coreanos, os jjimjilbangs). Para os nossos cantos ocidentais, a sauna tem se tornado assunto sério de business e de comportamento, um puxando o outro. O boom dos últimos dois anos alimentou um mercado que, segundo projeções, deve alcançar valor de US$ 2,24 bilhões em 2033 (a América Latina, hoje uma presença tímida, tem potencial para dobrar de tamanho para quase 20% desse quinhão). São números que vêm atrelados a mudanças de comportamento e à febre de uma espécie de wellness social.
O Reino Unido, por exemplo, viu triplicar em dois anos o número de ambientes públicos. Em Montreal, saunas com DJs têm chamado atenção de uma frequência nova — e jovem —, como o Recess Thermal Station, recém-inaugurado. Em Nova York, casas como a Russian and Turkish Baths (cravada no East Village desde os anos 1980) vem angariando novos amores pelas redes sociais, enquanto o moderníssimo The Altar, autodeclarado health club, tem esquentado seu soft opening em plena Quinta Avenida (ainda em esquema if you know, you know).
Em São Paulo, cidade novidadeira como é, a temperatura tem crescido com movimentos paralelos. Descontando-se as saunas voltadas ao público gay, que funcionam em uma sintonia muito própria, alguns ambientes essencialmente masculinos (e familiares) têm resistido com um público fidelíssimo, como o Balneário Maria José, clássico do Bom Retiro desde os anos 1970.
Na onda mais recente, o que era um espaço de confraternização e relaxamento se tornou zona de networking e desafio. Casas recém-inauguradas como a Kontrast, no Jardim Paulistano, e a Gangga, em Pinheiros, se apresentam como clubes de wellness, funcionando maioritariamente à base de memberships — a última, numa onda mais holística; enquanto a primeira aposta em ofertas de alta tecnologia. Ambas, contudo, alimentam o autocuidado social e focam no tratamento de contraste sauna + banheira de gelo, combinação que já foi restrita ao mundo dos
atletas. Entre uma experiência e outra, não é raro ver uma reunião de trabalho acontecendo. Em paralelo, na Vila Madalena, o Banho Urbano mantém certo clima de clube, mas em outro ritmo: não é um público que quer fechar negócio, mas aproveitar o tempo como autoterapia preciosa. Ali, entre duas saunas, uma piscina fria e os chuveiros abertos, a nudez social é obrigatória por princípios — a rigor, como os próprios inventores nórdicos praticavam originalmente. Funcionando menos por performance e mais por reenergização, o espaço tem perfil único no país ao criar um ambiente de casa de banho como manda o figurino.
Como lidar com as altas temperaturas?
Dada a falta de costume brasileiro com esse momento de suadouro, a etiqueta pode ser ardilosa. Mas só à primeira vista. A resposta mais honesta para essa pergunta é: depende do lugar. Cada casa tem suas normas; o que vem depois é uma camada de comportamento que distingue quem quer entender o ambiente de quem está apenas testando para contar nas redes sociais.
Frequentadora assídua das saunas, a jornalista e especialista em beleza e bem-estar, Vânia Goy, resume o básico: “Leve sua toalha. Não faça uma reunião dentro da sauna. E não ache que ela é só sua, ocupando o espaço de várias pessoas.” Três regras que soam óbvias, mas que ela atesta: são violadas com regularidade surpreendente. A toalha não é questão de pudor, mas educação. Seja na experiência nua ou com roupa de banho, a regra de ouro é sentar-se sobre ela — seja na sauna seca ou a vapor. É a única barreira entre você e o ambiente.
A sauna seca — a finlandesa de origem — opera entre 80ºC e 100ºC com baixíssima umidade. O calor é direto e imediato. A úmida, ou a vapor, trabalha com temperaturas menores, geralmente entre 40ºC e 60ºC, mas com umidade alta o suficiente para tornar a sensação igualmente intensa: o corpo não consegue evaporar o suor com a mesma eficiência, fazendo com que o calor pese mais do que o termômetro sugere. Na etiqueta, a diferença mais relevante é que perfumes, hidratantes e produtos capilares dissolvem-se no espaço de um jeito que ninguém ao redor vai agradecer. Aproveite a deixa e tome uma boa ducha antes de entrar no calor: a pele limpa faz toda a diferença na experiência. A sessão clássica dura entre dez e quinze minutos — o suficiente para o corpo suar de verdade.
Depois, o banho frio: seja um balde, chuveiro, tanque de água ou banheira de gelo. Em seguida, repouso. O ciclo se repete duas ou três vezes. Sair antes do tempo não é fraqueza — é o corpo avisando que já chegou onde precisava, e esse aviso merece ser respeitado (ainda mais para quem não está acostumado). Hidrate-se, hidrate-se e hidrate-se (precisa avisar?).
O uso do celular nem se discute. O calor e o vapor podem danificar o aparelho e, convenhamos, a ideia não é ficar derretendo com o WhatsApp na mão. Aproveite a desculpa (oportunidade rara!) para desconectar a valer. “É um dos poucos lugares onde posso não levar o celular. Ali, você acaba sendo forçado a ficar em paz,” diz Vânia. A questão do corpo — e da nudez, nos espaços que a praticam — costuma ser a maior barreira para quem vai pela primeira vez. “Se você se propõe a essa experiência, pode assumir que todos ali estão seguindo o mesmo acordo,” diz Gloria Kalil. “Você pode escolher o seu nível de conforto, respeitando as regras do lugar. É como na praia, nosso ambiente mais democrático, onde todos têm o direito de frequentar da maneira que acharem melhor: se a pessoa ficar muito preocupada com o corpo, com o que está vestindo ou não está vestindo… a brincadeira não tem graça.”
Vânia complementa com a tranquilidade de quem já navegou por ali inúmeras vezes: “As pessoas estão lá apenas vivendo a vida. Quando todo mundo está pelado, isso é tão naturalizado que você acaba esquecendo que também está.” Para quem ainda não chegou nesse nível de desenvoltura, há um caminho de entrada: espaços assim costumam ter dias ou sessões em que o traje de banho é opcional. Ir acompanhada de alguém que já conhece o ambiente ajuda.
E, como regra geral, lembrar que ninguém está prestando atenção no seu corpo — todo mundo está ocupado demais suando. Já ali dentro, não se esforce em tratar o silêncio como uma lacuna a ser preenchida: uma sauna não é um lugar de conversa obrigatória. Em muitos casos, a quietude faz parte da experiência. “Você conversa se alguém quiser conversar, mas é preciso um mínimo de bom senso para
entender se a pessoa está nessa energia,” diz Vânia. O que a sauna está oferecendo, no fundo, vai além de qualquer lista de regras. Entre vapores e calores, pode ser uma das poucas paradas na qual o corpo volta a ser protagonista sem precisar de justificativa. Num século em que a desconexão virou luxo e a presença, raridade, suar num cubo de madeira com desconhecidos pode ser, surpreendentemente, uma das coisas mais restauradoras da semana.
GUIA PRÁTICO DA SAUNA
Leve sua toalha, e sente-se sobre ela.
Tome uma ducha antes de entrar na sauna: cremes e óleos não pegam bem, especialmente na úmida.
Intercale com banhos de água fria para regular a temperatura do corpo.
Lembre-se do repouso a cada vez que sai da sauna. O próximo compromisso pode esperar. Relaxe.
Celular? Do lado de fora!
Metais não são bem-vindos. Deixe anéis, pingentes e brincos no armário.
Converse apenas se puxarem assunto. Nada de “está quente aqui, né?”
Se estiver acompanhado, papeie em tom baixo. Caso alguém novo chegue no ambiente, pergunte se a conversa incomoda.
Reuniões são restritas às saunas privadas. Lembre-se: este é um momento de relaxamento.
Hidrate-se — muito!
Alimente-se na medida: sauna pós-jejum prolongado pode ser tão ruim quanto depois de uma grande refeição. Álcool no sangue também não é uma boa pedida.
A nudez é aceita em algumas saunas. Vale praticar a democracia do corpo e o respeito. Se não estiver à vontade, use uma toalha extra.
Música? Só naquelas que têm DJ!
O tempo ideal quem diz é seu corpo. Respeite.
Momentos íntimos? Não aqui. Lembre-se de que as saunas são espaços compartilhados.
Olha a porta! Entre e saia rapidamente para não deixar o ar quente escapar e estragar a experiência de todos. Nada de segurar a porta aberta.
Se não estiver sozinho no ambiente, sempre pergunte antes de aumentar o vapor ou jogar água nas pedras da sauna seca.
Lembre-se que a sala é compartilhada. Se houver espaço, claro que você pode se deitar. Mas a regra é clara: sente-se se for preciso dar lugar a novas pessoas.
Não confunda com seu day spa particular: nada de aproveitar a temperatura para cortar as unhas, depilar a perna ou esfoliar a pele.
Não é o momento – nem o lugar – para se exercitar. Além de incomodar as pessoas, é um ambiente escorregadio. Se quiser uma sensação de calor com exercício físico, marque hot yoga.
Pensou em arriscar um topless em uma sauna que não exige nudez? Se não der sorte de estar sozinha, read the room para evitar constrangimentos.


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