Sempre teremos Paris?

Sempre teremos Paris?

Ou o último que sair da cidade-luz que quebre a lâmpada

Paris tem uma capacidade quase sobrenatural de sobreviver às próprias contradições. Já perdeu reis e impérios, fez revoluções, guerras e ocupações, guilhotinou cabeças, mas continua sendo Paris, com seu ego enorme e apartamentos cujo tamanho faz com que a gente não durma, mas se arquive. 

Milhões de turistas desembarcam ali todo ano convencidos de que pisaram numa ideia de civilização, em que até a grosseria dos garçons parece fazer parte do patrimônio imaterial da humanidade. E, no entanto, a pergunta que me faço é outra: Paris ainda produz o presente ou virou uma administradora exemplar do próprio passado?

Comecemos pelas manifestações que sacudiram a França nas últimas semanas. O que nasceu como uma mobilização estudantil por melhores condições de ensino e de infraestrutura acabou se misturando a protestos contra o custo de vida, a desigualdade e o estado dos serviços públicos. Nas ruas, os estudantes passaram a dividir espaço com sindicalistas, veteranos dos coletes amarelos e movimentos políticos de várias tendências. Em 17 de outubro, enquanto milhares de pessoas marchavam, grupos de saqueadores quebraram vitrines e esvaziaram lojas. Entre as atingidas estavam Louis Vuitton, Céline e Burberry, marcas que ajudaram a fazer de Paris o Vaticano internacional do consumo, onde os fiéis, em vez de absolvição, pedem lugar na lista de espera.

Essa convivência entre o luxo e a fúria é antiga em Paris, e poucas cidades fizeram do contraste entre riqueza e pobreza um autorretrato tão eficaz. A corte de Versalhes, os salões aristocráticos e, mais tarde, as maisons sempre dividiram a cidade com sucessivas gerações de trabalhadores, estudantes e descontentes que fizeram da rua seu palanque. A França não inventou a desigualdade, mas deu ao confronto entre privilégio e indignação popular uma dramaturgia tão bem-sucedida que, mais de dois séculos depois, ainda recorremos a Maria Antonieta para explicar os excessos dos ricos. A coitada nem sequer recomendou brioches aos famintos, ou ao menos não existe prova confiável disso, mas a posteridade a condenou a responder por todos os bolos que nunca ofereceu.

Os números de agora explicam por que a peça segue em cartaz. Segundo o Instituto Francês de Estatística, 16,8% dos habitantes de Paris viviam abaixo da linha de pobreza em 2023. Outro estudo da entidade, publicado em maio deste ano com dados de 2022, mostrou que metade dos inquilinos do mercado privado parisiense gastava mais de 34% da renda com aluguel, proporção que chegava perto de 40% entre quem morava sozinho e nas famílias monoparentais. Ninguém precisa eleger a capital francesa a cidade mais desigual do planeta, título disputado por concorrentes muito bem preparados, para perceber a violência simbólica de um mundo onde uma bolsa custa mais do que vários meses de moradia.

Seria cômodo, e um tanto ingênuo, ler a destruição das vitrines como um levante contra a ostentação dos bilionários e atribuir consciência política a todo sujeito que aproveita a manifestação para sair carregando uma Céline. Entre a indignação social e a chance de levar de graça um objeto de desejo existe uma distância que nem a sociologia francesa conseguiu eliminar. 

A revolta contra o capitalismo convive muito bem com uma disposição admirável para consumir seus produtos, desde que o caixa esteja fora de serviço. Os saques também não pouparam pequenos comerciantes, cafés, salões de beleza e lojas de bairro, cujo prejuízo nenhum conglomerado de luxo vai absorver.

O que me intriga é que a crise parece ir além da economia e atingir a própria capacidade francesa de imaginar novas formas de contestação. As mobilizações estudantis, que partiram de reivindicações legítimas, geraram também episódios de violência de uma incoerência surrealista. Segundo o ministro da Educação, Édouard Geffray, pelo menos 24 liceus foram incendiados ou devastados desde o início do movimento, centenas de outros sofreram danos e houve funcionários e estudantes feridos. O ministro atribui parte dos ataques a grupos violentos infiltrados nas manifestações, e seria injusto culpar todos os estudantes, assim como seria absurdo ignorar as denúncias de violência policial. Resta uma dúvida de ordem prática: que estratégia pedagógica recomenda incendiar a escola para convencer o governo de que ela precisa de reforma? Suponho que os professores de lógica, se ainda houver algum disponível, andem com a agenda cheia.

Nada disso é saudosismo de maio de 1968, embora os franceses tenham com suas revoluções uma relação tão afetuosa que às vezes as tratam como herança de família. Aquele maio teve suas violências, ingenuidades e oportunismos, mas também deixou uma efervescência intelectual que transbordou da universidade e das barricadas. Discutiam-se autoridade, sexualidade, família, trabalho, educação e liberdade individual, e a política se misturava à produção cultural. 

O célebre convite para procurar a praia debaixo dos paralelepípedos tinha uma poesia que ninguém vai superar fotografando uma loja saqueada para postar nas redes sociais. Eu me contentaria com bem menos do que um manifesto filosófico de cada adolescente francês antes da primeira pedra: bastaria que a revolta de hoje rendesse ideias à altura do barulho que faz.

Entre os manifestantes estão jovens cujas famílias passaram pela imigração e pelo colonialismo francês. Boa parte deles conhece o país dos pais e avós sobretudo pelo que ouviu em casa, e leva esses relatos para a maneira como entende pertencimento, discriminação e cidadania. Mas atribuir a eles uma identidade política única, ou supor que todas as suas reivindicações venham de conflitos herdados, é simplificar demais. A França de hoje tem experiências demais para caber numa explicação só, por mais que seus dirigentes e comentaristas se esforcem para encontrá-la.

A propósito de revoluções, descobri uma coincidência capaz de animar os astrólogos e de provocar um ataque de nervos nos historiadores. Em julho de 1789, quando os parisienses tomaram a Bastilha, Júpiter transitava por Leão e Plutão por Aquário, numa oposição que se tornaria exata semanas depois. Em 2026, os dois planetas voltaram a esses signos, e a astrologia associa essa configuração ao confronto entre o poder estabelecido e a coletividade. Nenhuma ciência sustenta que planetas provoquem revoluções, e o céu de 1789 não é idêntico ao de agora, mas a coincidência tem seu encanto literário. Maria Antonieta ficaria aliviada ao saber que, desta vez, a culpa não é só dela. Os magnatas franceses do luxo, por sua vez, fariam bem em encomendar um mapa astral antes de inaugurar mais uma boutique.

Fora das ruas, no terreno da cultura, a pergunta do início fica mais incômoda. Durante muito tempo, Paris não precisou justificar sua centralidade. Deu ao mundo movimentos artísticos, escritores, pintores, estilistas, cineastas e maneiras novas de vestir, comer, beber, fumar, amar e se deprimir com gola rolê. Quando não inventava, tinha um faro particular para legitimar a invenção alheia – na minha geografia cultural, que é bem pessoal, Londres cria, Paris chancela e Nova York vende a rodo. Por décadas, essa triangulação funcionou como um sistema global de circulação do gosto.

Mas o que Paris anda chancelando agora? Soa injusto perguntar isso numa cidade por onde a moda continua passando, com restaurantes que atraem cozinheiros de primeira e muito dinheiro e museus que seguem entre os mais importantes que existem. Com as grandes maisons em renovação, algumas galerias muito vivas e gente de talento chegando de toda parte, seria precipitado, para não dizer idiota, decretar a morte da criatividade parisiense. Me interessa a distância crescente entre prestígio e invenção, entre a cidade que dá importância a quase tudo o que recebe e a que cria o que os outros ainda não sabem que desejam.

Algumas cidades conservam o poder cultural muito depois de perder a inquietação. Ficam o patrimônio, as instituições, o dinheiro e, acima de tudo, a vontade dos estrangeiros de continuar acreditando nelas. Paris tem o maior estoque mundial desse capital simbólico: basta pronunciar seu nome e surgem Hemingway, Chanel, Picasso, Godard, Gainsbourg, Saint Laurent, Nouvelle Vague, existencialismo, impressionismo, surrealismo, alta-costura, nouvelle cuisine, art déco, nouveau... A cidade ainda explora como ninguém o imaginário da Belle Époque, que só ganhou esse nome depois de terminada. Paris fez da própria história um negócio de sedução tão eficiente que até suas contradições ganharam valor turístico.

Repare, entretanto, no tempo verbal dessa lista. A maior parte das referências pertence a um passado que segue à venda como glamour. O presente também tem seus nomes: Justine Triet ganhou a Palma de Ouro com Anatomia de uma Queda, e Coralie Fargeat mostrou com A Substância que a ousadia estética não sumiu do cinema francês. Na música, o rap francês tem Aya Nakamura.... mas uma sucessão de talentos, por mais brilhantes, não forma um movimento cultural com força centrífuga para sair da cidade e mudar o comportamento de outras sociedades.

Voltando à questão habitacional, viver no centro da cidade ficou fora de alcance para quem não é rico, não tem carreira estabelecida ou não teve a sorte de herdar um imóvel. Uma cidade criativa precisa de gênios, e convém que eles tenham onde dormir. Quando artistas, músicos, escritores, designers e cozinheiros são empurrados cada vez mais para longe, a cidade corre o risco de manter intactos os cenários onde sua história aconteceu enquanto expulsa quem poderia inventar os próximos capítulos.

Só para seguir o meu looping esquizo pseudo intelectualóide de Café de Flore, quero relembrar a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2024 para ilustrar o que eu acho que resume mais ou menos bem a crise da meia idade pós moderna da criatividade francesa. Houve excessos, confusão, momentos brilhantes e outros que pareciam concebidos depois de uma reunião que deveria ter terminado duas horas antes. Mas havia ali uma tentativa explícita de romper com a França eterna e criar uma imagem contemporânea, disruptiva, até avant-garde. 

Thomas Jolly e seus colaboradores desafiaram as representações tradicionais da identidade francesa misturando referências históricas, cultura pop, diversidade, música, moda e um número generoso de alegorias. O resultado irritou conservadores, entusiasmou os hipsters e toda sorte de bichas da sigla e deixou muita gente sem entender direito o que tinha acabado de ver. Ainda é cedo para saber se aquele espetáculo vai envelhecer como gesto visionário ou como uma enorme extravagância molhada às margens do Sena.

É essa inquietação que tenho dificuldade de encontrar no dia a dia cultural de Paris, e ela faz falta porque o luxo de uma cidade sempre foi ser imitada, mais do que visitada. Onde estão os movimentos artísticos, intelectuais e comportamentais que fazem alguém em São Paulo, Londres, Seul ou Nova York sentir que precisa saber já o que está acontecendo na capital francesa?

O Brasil, nesse ponto, oferece um contraste curioso. Produzimos cultura com uma energia quase irresponsável, uma capacidade industrial de fabricar memes antes que o acontecimento que os originou tenha terminado. Bom seria se gastássemos um terço desse fôlego em algo feito para durar mais de 48 horas. Ainda assim, há circulação, invenção, apropriação, vulgaridade, inteligência e movimento. Mistura-se tudo sem pedir licença a ninguém, e mesmo quando o resultado é alguma monstruosidade estética, a vitalidade é difícil de ignorar.

Desconfio que a criatividade parisiense tenha apenas mudado de endereço, de classe social, de origem e de linguagem, enquanto a procuramos nos mesmos cafés, galerias e bairros de 50 anos atrás. A Paris que ainda inventa pode estar nas periferias, nos estúdios improvisados, nas comunidades de imigrantes, nos músicos que nunca pisaram em Saint-Germain e nos artistas que jamais vão conseguir pagar um apartamento no Marais. Seria uma bela ironia se a cidade continuasse produzindo o futuro enquanto seus admiradores, ocupados em fotografar o passado, nem percebessem.

Paris continua bonita, rica e dona de uma densidade histórica que poucas cidades enfrentam sem desenvolver complexo de inferioridade, e segue seduzindo até quem conhece suas imperfeições e já não a confunde com um filme de Woody Allen. Mas beleza nunca serviu de projeto de futuro, do mesmo modo que a tradição revolucionária, sozinha, não garante ideia nova nenhuma.

E antes que alguém corra indignado para a caixa de comentários porque comeu um sole meunière divino no Tour d’Argent ou porque continua achando encantador o jardim do Palais-Royal, convém esclarecer que ninguém está discutindo a qualidade do peixe nem a competência dos jardineiros. Leia o texto inteiro, de preferência antes de decidir que ele é uma ofensa pessoal à França. 

Discordar é permitido e, dependendo dos argumentos, pode até melhorar a conversa. Mas, se a indignação for grande demais, um saco de boxe aguenta o tranco melhor. Também é possível pedir a uma inteligência artificial que explique a diferença entre questionar a relevância criativa de uma cidade e afirmar que ela deixou de ser maravilhosa, embora seja um pouco deprimente imaginar que chegamos a esse ponto da interpretação de texto.

Sempre teremos Paris, como prometia Humphrey Bogart em Casablanca, embora ele falasse de uma lembrança amorosa, e não de uma cidade obrigada a carregar por tempo indeterminado as expectativas culturais de todo mundo. O maior desafio de Paris está em se livrar dessa obrigação e aceitar que nem toda inovação precisa da sua chancela. Depois de tantos séculos ensinando os outros a romper convenções, Paris pode descobrir que sua próxima grande transgressão é deixar de representar Paris.

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