O ritual de despedida de um pet

O ritual de despedida de um pet

Cremações personalizadas, memoriais e grupos de apoio ajudam a transformar a maneira como as famílias se despedem dos animais

Poucas coisas são tão tristes quanto o momento de se despedir de um pet. O carioca Raphael Gandara sentiu isso na pele em 2013. Teahupoʻo, seu American Staffordshire Terrier de 13 anos estava internado em um hospital especializado em oncologia no Rio de Janeiro, depois que um tumor agressivo evoluiu para uma metástase no fígado. Já debilitado, havia passado por transfusões de sangue e tratamentos paliativos.

Quando Raphael chegou à clínica, Teahupoʻo reconheceu sua voz e desceu uma escada para encontrá-lo. O momento fez o tutor acreditar que ainda havia alguma esperança de que o cachorro pudesse melhorar.

Levou-o de volta para casa, mas, depois de uma nova crise, retornou ao hospital. Ali, percebeu que Teahupoʻo já não respondia aos tratamentos e optou pela eutanásia. Mesmo quando a decisão mais difícil já tinha sido tomada, outras ainda precisam ser feitas, como escolher entre cremação ou sepultamento. 

Raphael optou pela cremação individual, mas não sabia quem faria o procedimento, onde aconteceria ou se poderia acompanhar. A clínica resolveu tudo e, cerca de uma semana depois, ele recebeu em casa uma urna com as cinzas.

“Recebi a urna, mas não tive uma despedida. A entrega não era a ideal, mas era o que tinha,” diz.

A ausência do ritual de despedida marcou a experiência. A ideia de criar um serviço que oferecesse esse espaço, porém, já existia na família — em 2012, Leonardo, primo de Raphael, acompanhava a construção de um cemitério e crematório vertical para humanos idealizado pelo pai. Foi quando surgiu a possibilidade de criar uma operação voltada aos animais. O projeto saiu do papel em 2022, quando Raphael e os três primos retomaram a proposta e formaram a sociedade que daria origem ao MEMO.

Quando uma pessoa morre, o velório reúne familiares e amigos, interrompe a rotina e cria um espaço coletivo para reconhecer a perda. Na despedida dos animais, porém, esse tipo de ritual ainda é pouco comum — uma lacuna que o MEMO se propõe a preencher ao oferecer às famílias a possibilidade de acompanhar o processo e realizar uma cerimônia.

Para a psicóloga Wlliane Flores Moreira, especializada em luto e cuidados paliativos, a intensidade da dor está relacionada ao vínculo construído, não à espécie. “O luto tem o tamanho do vínculo, não da espécie em específico,” diz. O animal participa da rotina, da casa, dos horários e dos afetos mais íntimos. Quando essa presença desaparece, a perda também altera a vida cotidiana.

É por isso que a despedida importa. “Os rituais dão contorno à perda. Eles ajudam a transformar algo que é abstrato e desorganizado em algo que pode ser vivido, nomeado, compartilhado,” diz a psicóloga. Uma cerimônia permite dizer o que precisa ser dito; uma fotografia, uma coleira ou uma impressão da pata podem ajudar a construir o que ela chama de vínculo contínuo.

No MEMO, esse ritual acontece em uma casa na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os tutores podem permanecer com o animal antes da cremação e realizar uma cerimônia, que pode durar de 30 minutos a uma hora.

Na cremação individual, as cinzas retornam à família acompanhadas de uma urna e de um kit que pode incluir certificado, fotografia, chaveiro, mecha de pelo, impressão da pata e uma carta com o nome do animal. Alguns tutores demoram meses para abrir a caixa. “Tem gente que fala que não consegue mexer porque ainda dói. A pata e a carta são os itens que mais mexem com as pessoas,” diz Raphael.

A escolha entre cremação individual e coletiva também não segue uma lógica óbvia, tampouco o tamanho da cerimônia. Raphael já recebeu uma família de 17 pessoas para se despedir de um pug. “Cada um é cada um. Não tem regra,” diz.

No Ânimas, em Itapecerica da Serra, o ritual acontece em uma reserva natural de 110 mil m², cercada por Mata Atlântica. A cada cremação, uma árvore é plantada em homenagem ao animal, e o tutor pode escolher uma muda nativa do viveiro para acompanhar o plantio.

A natureza também faz parte da despedida do Mornington Green, na Austrália. As cinzas do animal são incorporadas a uma árvore plantada em uma área de conservação permanente. A família recebe as coordenadas exatas por GPS, pode realizar uma pequena cerimônia no local e acompanhar a árvore, cuja manutenção fica a cargo da equipe de horticultura.

Quando a presença física não é possível, a despedida pode acontecer pela tela. Na Memoriau, familiares e amigos podem participar de um velório online, acompanhando a cerimônia à distância. A plataforma também disponibiliza um memorial digital para reunir fotos, informações e lembranças, além de publicar uma nota de falecimento nas redes sociais.

A memória do animal pode ganhar ainda outra forma de permanência — a suíça LONITÉ oferece a possibilidade de transformar cinzas ou pelos em diamantes certificados por institutos renomados, como o IGI. São necessários 200 gramas de cinzas ou 10 gramas de pelos, e o processo leva de seis a nove meses, dependendo do tamanho, cor e corte escolhidos. 

E o acolhimento não termina necessariamente na cerimônia. Os Grupos de Acolhimento ao Luto por Perda Animal (GAPA) reúnem online, em grupos pequenos e com condução profissional, pessoas que passaram pela perda de um animal.

Segundo Wlliane, a forma como as pessoas procuram ajuda está mudando. “Muitas famílias hoje se reconhecem como um lugar de multiespaço. E dentro desse multiespaço, o animal ocupa um lugar de filho, de companheiro, da família,” diz. Ela percebe que os tutores chegam ao consultório com menos vergonha de nomear a própria dor e mais disposição para buscar apoio. Entre as questões que aparecem estão a culpa pela eutanásia, a casa vazia e até a dúvida sobre quando ter outro animal.

Entretanto, a ausência de reconhecimento social ainda pesa. “As frases como ‘era só um bicho’ ou ‘é só pegar outro’ fazem a pessoa se sentir não enxergada e, ao mesmo tempo, sofrer em silêncio,” diz Wlliane. Para ela, esse tipo de luto pode ser vivido como uma experiência de isolamento justamente porque os rituais sociais que costumam acompanhar outras perdas ainda não estão tão presentes.

Se o luto por um animal ainda é tratado por parte da sociedade como uma perda menor, esses rituais apontam para uma mudança na forma de lidar com a despedida. O movimento já ganhou escala suficiente para virar mercado: segundo a consultoria Grand View Research, o setor global de serviços funerários para animais foi avaliado em US$ 1,7 bilhão em 2025 e deve chegar a US$ 3,6 bilhões em 2033. Em 2025, a América do Norte concentrou 42% dessa receita.

Para Wlliane, porém, o sentido desses rituais vai além dos serviços que surgem ao redor deles. “Elaborar luto não é esquecer. É encontrar um novo lugar para aquele amor dentro da própria história,” diz.

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