Os hóspedes que nunca fazem check-out

Os hóspedes que nunca fazem check-out

Gatos, cães e patos transformam a rotina dos hotéis mais célebres do mundo e tornam-se até motivo para reserva

Hotéis de luxo costumam deixar pouco espaço para o acaso. A temperatura do quarto, a luz do lobby, o horário do café da manhã e até a forma de receber cada hóspede são cuidadosamente pensados. Ainda assim, em algumas das propriedades mais sofisticadas do mundo, o personagem mais querido não segue protocolo, ignora horários e pode simplesmente desaparecer no meio do expediente para tirar uma soneca.

No Le Bristol Paris, ele atende pelo nome de Socrate. No The Lanesborough, em Londres, quem ocupa o posto é Lilibet. Os dois são gatos residentes e assumiram, sem qualquer treinamento em hospitalidade, uma função que nenhum manual conseguiria prever: fazer com que um palácio pareça um pouco mais com uma casa.

Lilibet chegou ao The Lanesborough em 2019, ainda filhote. Uma siberiana batizada em referência ao apelido de infância da rainha Elizabeth II, ela circula livremente pelas áreas comuns, supervisiona a recepção quando está disposta e escolhe seus lugares de descanso de acordo com a incidência do sol. Quando deseja privacidade, conta também com refúgios nos bastidores do hotel.

“Ela se tornou parte essencial da identidade do The Lanesborough,” diz Jo Stevenson, Executive Head of Sales and Marketing da propriedade. “Muitos hóspedes perguntam por ela antes mesmo de chegar, e alguns escolhem se hospedar conosco porque querem conhecê-la durante a passagem por Londres.”

A liberdade, no entanto, já exigiu uma pequena intervenção tecnológica - como Lilibet tem o hábito de se esconder, o hotel decidiu colocar nela um rastreador geográfico, para garantir que a moradora mais imprevisível da casa esteja sempre segura.

Sua popularidade também pode ser medida pelos presentes enviados por admiradores de diferentes países - o mais extravagante veio de um hóspede japonês: uma cama para gatos de £ 7 mil. Nas redes sociais, as aparições de Lilibet estão entre as publicações de maior engajamento do hotel e, no lobby, sua presença costuma reorganizar espontaneamente o espaço: os hóspedes se aproximam das poltronas ou dos cantos ensolarados que ela escolhe, como se a gata tivesse a palavra final sobre os melhores lugares da casa.

Em Paris, Socrate exerce função semelhante, embora tenha herdado um posto com história: a tradição de gatos residentes no Le Bristol começou em 2010 com Fa-Raon, seu pai, hoje aposentado na casa de um funcionário. Depois dele, vieram Kléopatre e, em 2021, ele.

“Socrate é muito mais do que o gato residente. Ele faz parte da alma do Le Bristol”, diz Louise Barret, Front Office Manager do hotel. “Muitos hóspedes já o conhecem antes de chegar e perguntam por ele no check-in. Embora o hotel seja reconhecido pelo serviço e pela elegância, Socrate acrescenta algo humano e inesperado.”

Na maior parte do dia, isso significa dormir nos escritórios da governança, descansar atrás da recepção ou observar discretamente o movimento próximo ao concierge. Socrate também tem um espaço próprio no lobby, perto da central telefônica, mas não obedece a uma agenda de aparições: quem quiser encontrá-lo precisa contar com a sorte.

Sua imagem, por outro lado, está em diferentes pontos da propriedade - no Wall of Fame com desenhos e mensagens enviados pelos hóspedes, num marshmallow de chocolate em formato de gato e em um retrato no mural criado pelo artista Dimitri Rybaltchenko para a Honeymoon Suite.

A relação entre hotéis e animais residentes não é recente. No Algonquin, em Nova York, remonta ao fim dos anos 1920, quando um gato abandonado entrou no lobby e ganhou uma nova casa. Os machos que ocuparam o posto passaram a se chamar Hamlet; as fêmeas, Matilda. O atual residente é o oitavo Hamlet, sucessor de três Matildas, em uma linhagem quase tão conhecida quanto a Round Table que reuniu Dorothy Parker e outros nomes da cena literária nova-iorquina no estabelecimento.

Em Memphis, o The Peabody transformou cinco patos em uma atração diária - desde 1933, eles atravessam o lobby em direção à fonte de mármore, conduzidos pelo Duckmaster. Fora do expediente, os patos vivem no Royal Duck Palace, uma estrutura de mármore e vidro construída no rooftop do hotel por US$ 200 mil. A marcha acontece duas vezes por dia e já faz parte da identidade do hotel tanto quanto sua história centenária.

O título de embaixador, porém, não transforma esses animais em funcionários disponíveis sob demanda. Tanto no Le Bristol quanto no The Lanesborough, os encontros acontecem nos termos dos gatos. As equipes orientam os visitantes a esperar que eles se aproximem e mantêm áreas reservadas para os momentos em que preferem desaparecer.

“Ela é uma gata antes de ser nossa celebridade residente”, diz Stevenson sobre Lilibet. A mesma lógica vale para a sucessão. “Não se trata de substituir um ícone, mas de permitir que outro gato desenvolva, com o tempo, sua própria relação com o hotel, a equipe e os hóspedes.”

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