No último final de semana, o alvoroço para ver Lynn Painter na Bienal do Livro de São Paulo não era tão diferente do causado por uma estrela pop.
Alguns adolescentes e jovens foram ao encontro preparados, com cartazes, outros entoavam em coro o nome da escritora, quase todos tinham um celular em uma mão e um exemplar colorido na outra.
Os livros da norte-americana acompanham personagens carismáticos navegando pela adolescência e juventude, com direito a mal-entendidos, situações constrangedoras, diálogos espirituosos e um tantinho de drama, mas sempre com a promessa de um final feliz.
Esta é a quarta passagem da autora pelo Brasil, onde já vendeu mais de 1 milhão de exemplares pela Editora Intrínseca – a editora, aliás, registrou um aumento de 88% nas vendas do evento este ano, comparado à Bienal de 2024.
Um sucesso meteórico, considerando que seu primeiro livro foi publicado em 2021 nos Estados Unidos, e, desde então, ela já escreveu 13 romances de ficção, 10 deles já traduzidos para o português.
Embora sempre tenha sido uma leitora voraz, Lynn nunca havia cogitado tornar-se escritora antes de completar 40 anos, quando sua irmã sugeriu a ideia em uma conversa casual enquanto assistiam um talk show na TV.
Até então, trabalhava como coordenadora de facilities e se dedicava à família em Omaha, no Nebraska, onde ainda vive com o marido e seus cinco filhos. “Eu não sei por que dei ouvidos à minha irmã naquela ocasião, pois nunca faço isso [risos], mas comecei a escrever como um hobby e me apaixonei,” relembra a autora, aos 56, em entrevista ao Page9.
Naquele momento, ela não fazia ideia de que escreveria comédias românticas para adolescentes, muito menos de que seus livros se tornariam best-sellers do The New York Times. Atualmente, três dos dez livros mais vendidos do gênero young adult (jovens adultos ou YA, como é popularmente conhecido) são de autoria dela, inclusive o primeiro da lista.
Começou escrevendo romances dramáticos com toques de suspense para adultos, que nunca foram publicados — “os anos de rejeição”, segundo ela —, e foi só quando leu Quem é Você, Alasca?, romance young adult best-seller de John Green (autor que contribuiu para a revitalização do gênero na era pós-internet), que ela teve a ideia de rascunhar um livro para essa demografia.
O primeiro manuscrito, não publicado, garantiu uma agente. O segundo, um contrato com a editora Simon & Schuster e um passaporte para uma carreira literária mais do que bem-sucedida.
Melhor do Que Nos Filmes, seu debut, vendeu milhões de exemplares ao redor do mundo, viralizou no TikTok, ganhou uma sequência (intitulada Não é Como Nos Filmes), e está sendo adaptado como longa-metragem — atualmente em período de filmagem, com estreia prometida para 2027, na Netflix.

“Eu nunca imaginei escrever para adolescentes, mas isso acabou se tornando a coisa que mais gosto de fazer. Há uma verdadeira comunidade nesse nicho. Eles se juntam para conversar sobre os livros e enfeitar as capas. Muitos me contam que fizeram amigos por causa dessas histórias. É algo realmente incrível,” diz a autora.
Embora não sejam o público-alvo principal desses romances, os adultos representam boa parte dos leitores de young adult, de modo que esta categoria vem aos poucos deixando de ser apenas sobre faixa etária para se tratar também de uma estética.
Segundo um estudo da Nielsen BookData, publicado em 2024 no Reino Unido, 74% dos consumidores de literatura young adult são adultos, 28% dos quais têm mais de 28 anos. Na TV, séries voltadas para teens e jovens adultos como Off Campus e Sterling Point, ambas adições recentes ao catálogo do Amazon Prime Video, também conquistaram um público maduro.
Para Painter, o que o YA oferece aos adultos é uma oportunidade de processar resíduos emocionais da adolescência — bons e ruins, revisitando experiências de uma distância segura. “Acho que tem a ver com nostalgia. A adolescência é uma janela de tempo tão curta e tão intensa em que a gente meio que vive entre dois mundos, no limiar da infância e da vida adulta. É um período muito especial e que dura muito pouco tempo,” defende ela.
“As pessoas têm fortes opiniões sobre gêneros que elas não leem e acho que, com isso, muita gente subestima comédias românticas ou YA. Existem livros bons e ruins em qualquer seção de uma livraria. O fato dos personagens serem adolescentes não limita essas histórias a experiências e emoções que só acontecem na adolescência”.
A autora também tem em sua bibliografia alguns livros voltados para o público adulto, com personagens entre os 20 e poucos e 30 anos, como é o caso de Amor por Engano e Confusões do Amor. No entanto, todos os seus romances são, sem exceção, comédias românticas.

Painter cresceu assistindo a filmes do gênero dos anos 1990, como Uma Linda Mulher e 10 Coisas Que Eu Odeio em Você (uma das referências de seu livro de estreia), além de clássicos estrelados por Cary Grant, Audrey Hepburn e Doris Day, o que acabou influenciando sua voz literária.
“Existe algo reconfortante em ver uma dupla se atormentando por mais da metade da história, com a certeza de que tudo vai ficar bem — eventualmente eles vão se redimir e terminar juntos. Meu objetivo como escritora é oferecer um pouco de conforto e escapismo para alguém,” explica a autora. “Às vezes o que a gente quer é simplesmente focar em romance e parar de pensar nas contas a vencer [risos]”.
Seu novo lançamento no Brasil, Confiando em Nós Dois (compre aqui), se passa durante o outono em Nova York e acompanha dois jovens de 17 anos que, apesar de virem de mundos muito diferentes, se aproximam devido a uma herança inesperada.
“É uma mistura de Gossip Girl com Gilmore Girls,” brinca ela, para se fazer entendida entre o público na faixa dos 30 e 40 anos. A obra promete trazer as características de sua escrita já tão adoradas pelo público: inimigos que se apaixonam, atmosfera aconchegante, relações familiares. E traz ainda uma piscadela especial ao público brasileiro.
“Quando estive aqui ano passado, Julia foi o nome ao qual eu dediquei o maior número de livros nas minhas sessões de autógrafo. Resolvi nomear a protagonista deste livro em homenagem ao Brasil,” relembra.
“Se há dez anos você me dissesse que eu estaria em São Paulo, conversando com jornalistas e leitores, eu jamais acreditaria. Quando comecei a escrever, meu sonho era encontrar um livro meu em uma livraria — esse seria o ápice do sucesso para mim. Receber notícias como ‘você vai ao Brasil’ e ‘o seu livro vai virar um filme’ são coisas com as quais jamais vou me acostumar. Minha vida é irreconhecível comparada ao dia em que estava em frente à TV conversando com a minha irmã!”. Realmente, melhor do que nos filmes. Ou, pelo menos, tão bom quanto.














