Uma banana nem sempre é só uma banana. Pode ser mercadoria, produto de exportação, símbolo tropical. Ou porta de entrada para uma grande exposição. Em Histórias Latino-Americanas, mostra que o Masp inaugura este mês, a fruta ajuda a contar um continente feito de misturas, deslocamentos e histórias que variam conforme o narrador.
Com curadoria de Amanda Carneiro e Julieta González, a exposição reúne 187 trabalhos de 20 países. Dividido em cinco andares, o percurso não segue ordem cronológica, geográfica ou hierarquia de linguagens. Um objeto pré-colombiano pode aparecer ao lado de uma obra de Adriana Varejão. Séculos e milhares de quilômetros não impedem a conversa. “São artistas respondendo com diferentes estratégias às mesmas perguntas,” disse Amanda ao Page9.

Uma delas está no nome da exposição. O que chamamos de América Latina reúne, sob a mesma alcunha, territórios, povos e culturas muito diferentes. As fronteiras que hoje desenham o continente começaram a tomar forma depois da chegada de espanhóis e portugueses a terras onde já havia outras populações, línguas e maneiras de habitar o espaço. “A América Latina, sobretudo essa do singular, é a da colonização,” diz a curadora. “Falar desse lugar só pode ser no plural.”
O visitante pode começar pelo sexto andar, em O Mundo ao Revés, que revê narrativas sobre o passado, e descer até o segundo, em A Queda do Céu, onde a mostra se abre para futuros possíveis. Ou fazer o caminho inverso. “A exposição subverte essa perspectiva cronológica, evolutiva do tempo. Tem um fio narrativo, mas que funciona em espiral,” explica Amanda, como se o passado, em vez de ficar para trás, estivesse sempre a um giro de distância. A expografia, inspirada nos Metaesquemas, de Hélio Oiticica, usa painéis, blocos de cores e cortes diagonais para evitar separações rígidas entre os núcleos.
É nesse cruzamento de tempos que imagens conhecidas dos brasileiros voltam a aparecer, mas sob nova luz. A Primeira Missa no Brasil, de Victor Meirelles, pintura que gerações inteiras conheceram nos livros escolares, reaparece em uma releitura de Ventura Profana. “A gente parte dessa memória que as pessoas têm, sem reafirmar a história contada do ponto de vista de quem dominou,” explica a curadora.
Denilson Baniwa faz movimento semelhante. Na série Rasuras, acrescenta frases, desenhos e colagens a gravuras e documentos que retrataram povos indígenas e seus territórios a partir do olhar de quem chegava de fora. Não Há Cartografia no Mundo dos Pajés é um bom exemplo. Sobre um antigo mapa da Amazônia, feito para localizar rios, futuras vilas e áreas de exploração, Denilson insere referências à cosmologia indígena. “Cartografar o mundo dos pajés, dos xamãs, é quase como destruir esse mundo também,” disse o artista.
Nem toda parada, porém, exige viagem tão longa no tempo. Retórica do Progresso olha para as cidades e as promessas, cumpridas ou não, de desenvolvimento que marcaram a região. Uma das janelas deixa a Avenida Paulista entrar na exposição, colocando a cidade real em diálogo com as obras.
Clara Ianni volta à construção de Brasília em vídeo, cruzando desenhos do Plano Piloto com uma greve de trabalhadores reprimida pela polícia, em Forma Livre. “Estava interessada nesse chão no qual a forma se constrói,” afirma. Para ela, a contradição está na própria ideia de modernização da América Latina. “Nela, está contida a figuração daquilo que devemos ou queremos ser.”
Em Sociedades Americanas, o foco está nas experiências de organização comunitária, da educação popular às mobilizações indígenas, negras, camponesas e feministas. El Viejo Griot, de Daniel Lind-Ramos, reúne materiais ligados à vida coletiva e resíduos costeiros em uma figura monumental, espécie de guardião da memória.

No meio do percurso, a exposição muda de compasso. O núcleo Estamos em Salsa empresta o nome de uma canção de Wayne Gorbea para acompanhar comunidades que atravessaram fronteiras carregando música, costumes e memória na bagagem. O próprio ritmo nasceu desse trânsito, misturando referências cubanas e porto-riquenhas antes de ganhar novas batidas em cidades como Cali e Nova York. “A salsa vira um excelente motivo para pensar nas diásporas latino- -americanas. Quando as pessoas migram, os produtos culturais migram junto,” diz a curadora.
É aí que a banana ganha a cena. Exportada em larga escala por países tropicais, ela se tornou uma imagem tão colada ao imaginário da região que acabou entrando no vocabulário da arte. Por trás da inocente casca amarela, há uma história bem menos ingênua, de exploração econômica, colonialismo e das chamadas “repúblicas das bananas”.
Mas a fruta eternizada por Carmen Miranda não é a única mercadoria a ganhar outros sentidos pelo caminho. Em Colombia, Antonio Caro escreveu o nome de seu país com a tipografia da Coca-Cola, misturando identidade nacional, publicidade e consumo numa mesma imagem.
No segundo andar, A Queda do Céu vira a página mais uma vez. O título vem do livro de Davi Kopenawa escrito com Bruce Albert, que Amanda lê e relê há alguns anos. Partindo da visão ianomâmi, a obra questiona a separação de seres humanos e natureza, enraizada no pensamento ocidental.
A crise ambiental é uma das consequências desse modo de enxergar o mundo. Mas o núcleo vai mais longe e aproxima universos que parecem pouco ter em comum. Uma máquina e um saber transmitido há gerações, por exemplo, não estão necessariamente em campos opostos. “Antes de existir, qualquer tecnologia precisou ser imaginada,” diz a curadora. O resultado é um improvável diálogo entre as religiosidades afro-cubanas de Wifredo Lam e as esculturas robóticas de Fernando Palma Rodríguez.
Não importa por onde se comece. O fio condutor é a desconfiança de qualquer definição fechada demais. “As identidades têm sempre uma dimensão de uma certa ficcionalidade,” diz Amanda. “A gente vende histórias para a gente também.” Em cinco andares, Histórias Latino-Americanas encontra muitas maneiras de contar um continente que se recusa a caber no singular.














