O Brasil nunca teve tantas academias. Em uma década, o número de centros de atividade física no País quase triplicou: de pouco mais de 22 mil CNPJs ativos em 2015 para quase 63 mil em 2025, segundo a 4ª edição do Panorama Setorial Fitness Brasil.
O setor movimentou entre R$ 17 bilhões e R$ 18,3 bilhões em 2025, 44% a mais do que em 2020, enquanto o número de alunos matriculados passou de 10 milhões para 15 milhões desde 2019.
É um mercado que vive hoje uma combinação particularmente fértil de culto ao corpo, popularização dos medicamentos de GLP-1 e uma busca cada vez maior por experiências que ofereçam algo além do exercício em si.
Ao mesmo tempo, o Brasil lidera o ranking global de solidão entre 28 países pesquisados pelo Instituto Ipsos. Metade dos brasileiros diz se sentir solitária, contra 33% na média global — um pano de fundo que ajuda a explicar por que o fitness deixou de ser só o lugar de suar a camisa e passou a disputar um papel social, dentro e fora da academia tradicional.
A Silva Gym, academia de musculação carioca que expandiu suas atividades para São Paulo e Santa Catarina, aposta em uma relação mais próxima entre aluno e profissional.
Antes de fundá-la, três anos atrás, Rafael Silva passou por praticamente todos os modelos do setor, das redes low cost aos estúdios premium. A experiência serviu para identificar o que não queria repetir: academias em que o aluno se torna mais um na catraca e onde os profissionais estão ocupados demais competindo por comissão e atenção para acompanhar de perto quem está treinando.
Por isso, a rede trabalha com um profissional para cada três clientes e limita o número de alunos por unidade — uma estrutura pensada para acompanhar de perto quem treina, entender sua rotina e perceber quando algo muda.
A sensação de ser cuidado parece ter um apelo particular entre as mulheres, enquanto parte dos homens tende a preferir uma relação mais independente com o treino — distinção que também ajuda a explicar por que esse tipo de acompanhamento não tem o mesmo peso para todos.
Lá, a experiência custa entre R$ 839 e R$ 1 mil por mês, com 12 unidades em operação, mais de 25 franquias em negociação e a mira em um faturamento de R$ 70 milhões até o fim de 2026.
A ideia de comunidade também sai de dentro da academia: o Silva Day, evento proprietário realizado no Rio de Janeiro, combina atividade física, música e experiências para os alunos. A edição mais recente esgotou ingressos em poucos minutos, reuniu 2 mil alunos e teve apresentação do cantor Filipe Ret.
A The Corner Wellness, na Vila Nova Conceição, não se define como academia, mas como um clube social de wellness — e a diferença aparece antes mesmo de passar a catraca. O projeto foi pensado para funcionar como extensão do bairro, não como um destino para onde se vai exclusivamente treinar.
Ali, é possível malhar, fazer as unhas, cortar o cabelo, comer em uma padaria ou em um bom restaurante japonês a poucos passos, sem que essas atividades precisem acontecer em endereços separados.
A arquitetura reforça essa relação com a cidade. Em vez de criar uma barreira entre o projeto e a rua, a calçada da The Corner Wellness se prolonga para fora e acompanha todo o quarteirão, criando uma transição mais fluida entre o espaço interno e o bairro.
Lá dentro, as salas de exercício têm janelas amplas com vista para a região, em uma relação contínua com os arredores.

O social club parte de uma visão menos fragmentada de bem-estar ao conectar diferentes profissionais e serviços para que o cuidado não aconteça em partes isoladas, mas dentro de uma mesma rotina.
E esse movimento não é exclusividade brasileira. Nos Estados Unidos, um relatório do Bank of America Institute publicado em fevereiro de 2026 mostra que o gasto de jovens da geração Z e millennials com fitness vem crescendo enquanto o consumo de álcool desse grupo recua — o banco descreve o movimento como uma migração do balcão do bar para a barra de peso.
Um dos casos mais interessantes (e radicais) dessa lógica está em Nova York, e também não é uma academia: a Othership se define como um clube social de contraste térmico, construído em torno de sauna e banho de gelo.
A marca nasceu de um grupo de amigos que fazia imersões em banheira de gelo no quintal de casa e hoje ocupa endereços em Williamsburg e no Flatiron, pensados inteiramente para a sensação física compartilhada: saunas que passam dos 90°C, banhos de gelo guiados, aulas de respiração e um lounge de chá iluminado por velas, sem álcool nem celular liberado.
O calor e o frio funcionam ali como o gatilho social que, em outros lugares, seria a bebida. Com programação agitada, a casa promove desde noites de stand-up dentro da sauna até eventos para solteiros que alternam calor extremo, banheira de gelo e música, apostando que o vínculo nasce do corpo, não do copo.
Em um setor que cresceu adicionando modalidades, equipamentos e serviços à experiência de fazer exercício, a aposta da vez está em tudo o que acontece ao redor do treino: o profissional que sabe seu nome, as pessoas que você passa a encontrar toda semana, o bairro ao redor ou até a temperatura da água em que você mergulha.
















