Você pode nunca ter escutado a Filarmônica de Berlim — o que duvido muito —, mas certamente já viu essa cena: do alto do pódio, o austríaco Herbert von Karajan (1908-1989), com seus cabelos cuidadosamente penteados para trás rege, de olhos fechados, o grupo sinfônico que comandou por 35 anos. O som da orquestra, seja qual for a obra a ser executada, é uma massa sonora compacta, de execução impecável e um perfeito equilíbrio entre os instrumentos, que a caracterizam como a “maior orquestra do mundo.”
Desde a partida de von Karajan, três maestros distintos comandaram essa Ferrari musical: o italiano Claudio Abbado (1933-2014), que assumiu o posto de 1989 a 2002; o inglês sir Simon Rattle foi seu sucessor, liderando a orquestra de 2002 a 2108, sendo substituído pelo russo Kirill Petrenko. É ele quem rege a orquestra — que, aliás, nunca perdeu sua qualidade sonora — em duas apresentações em São Paulo.
Em outubro, os “berliners” tocam na Sala São Paulo, numa performance que faz parte do projeto Música pela Cura, no qual toda renda será revertida para o tratamento de crianças e adolescentes com câncer atendidos pela TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) em parceria com o Santa Marcelina Saúde.
O repertório traz o primeiro Concerto para Piano, de Johannes Brahms, tendo o islandês Víkingur Ólafsson como solista; o poema sinfônico Assim Falou Zaratustra, do também alemão Richard Strauss; as Variações Enigma, do inglês Edward Elgar, e a Quarta Sinfonia, do autor russo Piotr Ilitch Tchaikovsky.

“Estou feliz em visitar o Brasil de novo, dessa vez como regente,” diz Petrenko, em entrevista ao Page9, numa mini-coletiva virtual. “Anos atrás, eu fiz uma viagem a passeio pelo Rio de Janeiro.”
O maestro fez algumas observações sobre o repertório das récitas no País. “A primeira noite terá um programa alemão. É o cerne do nosso repertório, algo que está no nosso sangue; Víkingur Ólafsson será o solista, em substituição a Daniil Trifonov, que ainda está se recuperando de uma doença. Ólafsson é um conhecido da orquestra, tocou conosco o Concerto para Piano, de Robert Schumann, em Londres e tenho certeza que será algo muito especial. Já Assim Falou Zaratustra é o famoso poema sinfônico que começa com uma das peças musicais mais célebres de todas, evocando o nascer do sol e a filosofia de Friedrich Nietzsche sobre o profeta Zaratustra,” concluiu.
A segunda noite será dedicada ao repertório romântico, como o regente fez questão de pontuar. “As Variações Enigma significam muito para mim, fazem parte da minha pesquisa do repertório britânico ao lado da orquestra. Por último, a obra de Tchaikovsky que fala do destino — ou fatum, como o autor costumava dizer — e da luta de um indivíduo contra a tragédia da vida, tentando superar a situação e dominar o destino, mas acaba sucumbindo a ele,” resume.
Criada em 1882 por um grupo de 54 músicos que se revoltaram com seu então diretor-artístico, Benjamin Bilse (1816-1902), que tinha então uma mini-orquestra sob o seu comando para tocar um repertório popular, a Filarmônica de Berlim é um grupo sinfônico peculiar.
São eles que escolhem os próprios maestros e cobram, muitas vezes de modo ríspido, os companheiros de profissão.
O ex-contrabaixista Rudolf Watzel, que integrou o conjunto de 1968 até os anos 2000, confessou que durante seu período probatório foi acordado de madrugada pelos seus companheiros de estante. “Ou você melhora ou está fora,” disseram. Ele, claro, melhorou.
Outra característica importante é a tal sonoridade, moldada pelo alemão Wilhelm Furtwangler (1886-1954), dono de uma sensibilidade impressionante, principalmente no repertório clássico e romântico.
Karajan, seu sucessor, adicionou uma obsessão pela precisão às características desenvolvidas por Furtwangler. O austríaco solidificou ainda a imagem do regente ditador — difícil no trato pessoal, a ponto de confessar para os músicos seu desejo de atear fogo neles.
O maestro, no entanto, transformou os “berliners” numa máquina de fazer dinheiro como nenhuma outra. Os discos que ele gravou à frente do conjunto venderam mais de 100 milhões de cópias e os instrumentistas abocanharam parte desses royalties — a ponto de serem os músicos de orquestra mais bem pagos do mercado.
Aliás, foi sob o comando e incentivo de Karajan que surgiram os 12 Violoncelos da Filarmônica de Berlim, que também integram a turnê sul americana da trupe.
Eles tocam no sábado, 17 de outubro, na Sala São Paulo e o repertório traz, entre muitas maravilhosas obras dos americanos John Williams e Burt Bacharach (1928-2023) e do argentino Astor Piazzolla (1921-1992) — o brasileiro aqui presente sente falta de Mas que Nada, de Jorge Ben Jor, que ele registraram no disco South American Getaway, de 2000.
Claudio Abbado foi o contraponto ao comportamento irascível de von Karajan. Ele preferia ser chamado de “Claudio” ao invés de “maestro” e tinha um estilo mais suave de regência. Bateu seríssimos candidatos como o também italiano Riccardo Mutti e o americano Lorin Maazel (1930-2014).
O primeiro caiu em desgraça junto ao naipe de metais por repreendê-los num ensaio aberto. Maazel, então franco favorito, teria regido os berliners de modo displicente durante uma turnê européia, certo de que sua posse era um fato consumado.
O relacionamento com Abbado se desgastou por conta das fracas vendas de discos e do fato dos ensaios dele serem um tanto enfadonhos. “A gente vive um dilema. Depois dos ensaios, nos perguntamos quando ele vai embora. Mas após os concertos, torcemos para que ele não nos abandone,” disse um dos trompistas do conjunto. Em 1999, contudo, o italiano anunciou que não renovaria seu contrato.
Sir Simon Rattle trouxe uma variedade maior de repertório, em especial a música do século XX. Ele ainda ressaltou a preocupação social da orquestra. Criou programas de educação musical, bancou concertos para refugiados e trouxe jovens imigrantes da periferia para dançar a Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky (1882-1971) — evento registrado no documentário Rhythm is It, de 2003. “Todo maestro tem, digamos, a sua marca — como se diz? — o seu toque pessoal; aí vem o próximo e imprime à orquestra uma nova personalidade, uma nova forma. E Petrenko está dando seu formato para a Filarmônica de Berlim,” resume Andrea Maria Tomasi, violonista e porta-voz da orquestra.

Kirill Petrenko, a exemplo de Claudio Abbado, era uma espécie de “zebra”. O favorito da pesquisa era o letão Andris Nelsons, atual capo da Sinfônica de Boston e da Gewandhaus, de Leipzig. Seu currículo traz mais temporadas de ópera do que concertos.
A orquestra, no entanto, adora sua precisão nos ensaios e a leitura que deu para obras de Ludwig von Beethoven (1770-1827) e Tchaikovsky (1840-1893), além da discrição com a qual conduz sua carreira (suas entrevistas são raras) e o trato com os músicos. Ele, no entanto, sabe da responsabilidade em comandar aquele grupo e das inevitáveis comparações com Karajan.
“É claro que sinto essa tradição sempre que entro na minha sala e vejo a cadeira onde Karajan se sentava. E, naturalmente, isso significa muito para mim. Também estudei a fundo a biografia dele, sua arte de fazer música e suas gravações — em particular, a de O Anel do Nibelungo. Mas devo dizer que já não encaro isso como um peso. Sinto-me feliz por fazer parte dessa história,” explica.
Quais seriam então as diferenças entre ele o homem que moldou a Filarmônica de Berlim?
“Procuro trazer minha própria interpretação a algumas obras do repertório de Karajan e a orquestra é muito receptiva. Não sinto qualquer resistência ao trabalhar a minha própria abordagem dessas peças. E, claro, continuo estudando as partes das obras tal e qual Karajan as regia: aprendi suas marcações de arco e suas dinâmicas. Mas então eu decido como isso deve soar hoje.
Trata-se, por assim dizer, de recriar essa tradição, fazendo ajustes e trazendo algo novo, algo que vem do meu coração. Fico feliz em fazer parte dessa história. Não sinto receio de ser comparado a Karajan. A história não ficou para trás, mas agora estamos no presente e preparando o futuro,” conclui.

Petrenko é descendente de ucranianos e recentemente o governo alemão anunciou um pacote de um bilhão de euros para auxiliar o governo da Ucrânia. O que, claro, rende a inevitável pergunta sobre como ele está vendo essa situação.
“Sentimos muito essa tensão também internamente, pois todo o esforço de ajuda à Ucrânia representa um grande desafio para todos nós. Me faz sentir que ainda podemos ajudar a tornar este mundo um lugar melhor,” disse.
“É como se falássemos uma única língua, a linguagem da música. Algo que, na verdade, todos deveriam compreender. Tenho sempre a sensação de que, ao realizar um concerto e oferecer ao público o melhor que podemos, proporcionamos duas horas de paz. São duas horas de meditação, de concentração, de não pensar no que está acontecendo no mundo,” filosofa.
A Filarmônica de Berlim é, hoje, uma espécie de ONU Musical. Cerca de 35 de seus 133 instrumentistas são de nacionalidades diversas. “Temos gente da Islândia, da Venezuela, do Chile… Mas a orquestra inteira participa da audição dos candidatos a fim de garantir nossa sonoridade. Porque não se trata só de tocar bem, mas também de se integrar ao grupo,” explica o maestro. Tudo para que o “som de Berlim” permaneça intacto.
“O mais importante é que essa sonoridade rica em timbres e de tom escuro seja sempre reconhecida como o som de Berlim. Eu ainda sinto isso e estamos trabalhando para preservar essa característica para as futuras gerações.
Por outro lado, buscamos harmonizar a contribuição individual de cada músico, mesmo dentro do naipe dos primeiros violinos: podemos ouvir, ver e sentir que esses músicos têm sua própria expressão e sua própria paixão. Isso vale também para as madeiras — que são solistas por natureza —, bem como para os metais e a percussão,” disse Petrenko.
“Somos todos solistas, mas conseguimos nos unir como um grupo. E, para mim, há um segundo ponto muito importante: nossa orquestra é capaz de produzir sonoridades diferentes para obras distintas. Não temos um som único e imutável ao qual forçamos Tchaikovsky, Debussy ou Haydn a se adequarem. Pelo contrário: Haydn soa como Haydn, Tchaikovsky soa como Tchaikovsky. É autêntico, é único, mas, ainda assim, reconhecível como o som da Filarmônica de Berlim.”
É exatamente essa sonoridade particular que vai invadir a Sala São Paulo em outubro.
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