Os irmãos mais marrentos do rock ganham um documentário

Os irmãos mais marrentos do rock ganham um documentário

Escrita pelo roteirista de “Peaky Blinders”, o doc “Don´t Look Back in Anger” é um registro íntimo da reconciliação dos irmãos Gallagher

“A relação com o meu irmão é ótima. Eu faço sucesso tocando minhas músicas e ele faz sucesso tocando MINHAS músicas.” A declaração de Noel Gallagher, guitarrista, cantor e autor de alguns dos maiores hinos do rock dos anos 1990 a este jornalista em 2017 sepultou, a princípio, o retorno do Oasis aos palcos. 

A despedida havia sido dramática: em 2009, antes de uma performance da banda em Paris, ele e o irmão Liam, vocalista de comportamento irascível, tiveram sua briga definitiva. Primeiro, o cantor atirou uma ameixa no irmão. Não satisfeito, ele sacudiu a Gibson vermelha de Noel e a espatifou no chão — algo que o compositor classificou como “um ato desnecessariamente violento.”

Os dois passaram quinze anos sem se falar até agosto de 2024, quando foi postado este enigmático anúncio: “As armas silenciaram. As estrelas se alinharam. A grande espera terminou. Venha ver. Não será televisionado.” Logo em seguida, foi dado o pontapé inicial para uma das turnês mais bem-sucedidas dos últimos tempos. A Oasis Live 25 Tour passou por onze países e angariou US$ 525 milhões no mundo inteiro, perdendo apenas para Beyoncé.

Animados, os irmãos acabam de anunciar uma nova excursão mundial para 2027. A princípio, ela se inicia no dia 21 de maio em Glasgow, na Escócia, e passa por mais dez países (o Brasil, inicialmente, não está nos planos).

A esperança de uma nova excursão — com sorte, sem brigas — de Noel e Liam faz com que seja obrigatório assistir a Don't Look Back in Anger. Dirigido por Will Lovelace e Dylan Southern (que registraram, entre outros, documentários sobre os grupos Blur e LCD Soundsystem), a produção foi exibida em sessões especiais nos cinemas brasileiros e daqui a pouco entra no catálogo do canal Disney+. É um registro íntimo do processo de reconciliação dos irmãos, bem como o sucesso das apresentações no mundo inteiro — inclusive no Brasil, que sediou as performances derradeiras da turnê.

Para quem passou as últimas três décadas em Marte, vamos a um pequeno esclarecimento sobre a importância da banda dos irmãos Gallagher. Surgido em 1991 na cidade de Manchester, Inglaterra, o Oasis foi o cavalo de batalha do Britpop, um boom das bandas britânicas daquele período — e aqui podemos citar grupos como Blur, Pulp, Suede e The Verve, que também tiveram um grande destaque na cena. 

O Britpop representou um novo momento da Inglaterra, que em 1997 elegeu Tony Blair, jovem político do Partido Trabalhista como Primeiro Ministro. O otimismo de novos ares para a música e para a política — o país havia sido comandado por dezoito anos pelo Partido Conservador —, somados aos bons momentos da moda e cinema (leia-se a modelo Kate Moss e filmes como Quatro Casamentos e um Funeral, que revelou o ator Hugh Grant) rendeu um apelido majestoso para o antigo império: Cool Britannia. 

Noel e Liam Gallagher foram os eleitos do público (demais) e dos jornalistas (nem tanto). Filhos da classe operária, faziam questão de abusar do sotaque mancuniano, um dialeto do norte da Inglaterra, nas entrevistas. Torciam para o Manchester City, o que naqueles tempos era o mesmo que reverenciar a Portuguesa de Desportos. Marrentos até a medula, eram — e são — os mestres dos insultos. 

“Chris Martin, do Coldplay, parece um professor de geografia, Keith Richards e George Harrison estão gagás e não comem torta de carne o suficiente,” disparou Liam. Noel, por seu turno, disparou contra Victoria Beckham — “porque está escrevendo um livro de memórias, ela é incapaz de mascar chiclete e andar em linha reta ao mesmo tempo!”— e desejou a morte do vocalista Damon Albarn e do guitarrista Graham Coxon, do Blur, que durante anos foram rivais do Oasis nas paradas.

Os disparates e as brigas internas de Noel e Liam eram compensados pela qualidade de suas composições. E bota qualidade nisso: músicas de alto apelo melódico, com riffs de guitarra pontuais — escute, por exemplo, Supersonic e (What's the Story) Morning Glory — e refrãos para serem cantados em estádios, como Wonderwall e Don't Look Back in Anger

De 1994 a 1998, o conjunto lançou três discos e uma coletânea de singles que estão entre os melhores trabalhos do universo pop dos anos 1990. A saber, Definitely Maybe, (What's the Story) Morning Glory, Be Here Now e a compilação Masterplan.

A ansiedade do público em escutar de novo essas pedradas ao vivo e tocadas pelos irmãos — que revisitaram esse repertório separadamente — fez com que a turnê e o filme se tornassem obrigatórios. 

Escrito por Steven Knight, roteirista do seriado Peaky Blinders, Don’t Look Back in Anger tem duas linhas narrativas. A primeira é focada na reconciliação de Noel e Liam. Os primeiros ensaios são marcados por olhares de canto de olho, comunicação através de terceiros — em geral Bonehead, guitarrista da primeira formação do grupo, serve como interlocutor dos briguentos — e o medo que surja a primeira rusga e o fim da turnê que mal havia começado. Mas em Cardiff, no País de Gales, ponto inicial da excursão, Liam segura o braço de Noel e os dois entram de mãos dadas no palco. Segue uma entrevista reveladora da dupla, na qual eles dizem que seus filhos se tornaram até amigos de bebedeira.

A outra linha narrativa é ainda mais interessante e fala da reunião do Oasis sob o ponto de vista dos fãs. Muitos deles, aliás, nem tinham idade para apreciar as músicas no tempo em que foram lançadas. É o caso do adolescente que os assistiu em Cardiff e é flagrado zanzando desorientado após o show.

Quando algumas pessoas mais velhas perguntam se está tudo bem, ele confessa que está apenas “saboreando o momento.” Uma fã brasileira confessa que batizou seu cachorro de Bonehead e um torcedor argentino do San Lorenzo adaptou a canção Wonderwall para ser usada como hino de seu time. 

São essas pessoas e seus depoimentos que fazem o público entender o porquê da importância do Oasis e tornam Don’t Look Back in Anger uma exibição obrigatória e emocionante.

Em tempo: o mesmo jornalista que fez a pergunta a Noel no primeiro parágrafo disse a ele que seu filho também se chama Noel. Mas bastou o guitarrista se animar para o repórter dizer: “Mas não foi uma homenagem a você.” Isso mesmo. De vez em quando nós nos damos a primazia de sermos marrentos como Noel e Liam.

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