A elegância das rugas estratégicas. Sim, estratégicas

A elegância das rugas estratégicas. Sim, estratégicas

O rosto imóvel ficou parado no tempo. Preservar algumas (mas só algumas) linhas finas é símbolo de luxo e maturidade

A busca por uma testa perfeitamente lisa perdeu o status de ápice estético. Não que o Botox tenha sumido (imagina!), mas preservar algumas linhas finas (e alguma mobilidade expressiva) tornou-se o novo semblante da elegância “natural”.

Mulheres entre os 30 e 40 anos têm repensado a paralisação excessiva por neurotoxinas. Perceberam que uma pele excessivamente esticada transmite uma mensagem desesperada e deselegante: a de tentar esconder a idade a qualquer custo.

Não à toa, a preservação de linhas finas passou a ser batizada pelos dermatologistas como "rugas estratégicas". O desejo delas é não deixar na cara, literalmente, que está botocada - e parecidíssima com meio feed do Instagram.

O foco desloca-se da paralisia muscular para o resgate do viço, da firmeza e do dinamismo facial, integrando dermatologia e neurociência da expressão.

"As pessoas estão muito mais conscientes em relação ao efeito de um procedimento mal planejado, já que observamos muitos excessos gerados pelo preenchimento com ácido hialurônico. No consultório, essa parcimônia acabou estendendo-se para qualquer procedimento pelo medo de um resultado artificial," diz a dermatologista Amanda Voltareli.

"No que diz respeito às linhas de expressão, tenta-se cada vez mais encontrar um equilíbrio entre a prevenção da formação de linhas profundas e a preservação da dinâmica facial. A boa prática dermatológica sempre levou em consideração que a preservação da identidade do paciente é a prioridade. E não há nada mais elegante do que ser você mesmo com intervenções que a façam envelhecer bem, porém sem excessos."

Há uma mudança clara nos consultórios. Quem antes chegava pedindo para ficar “sem mexer um músculo”, hoje pede algo bem mais sutil. “O que eu escuto muito é: ' quero parecer descansada, mas não quero que percebam o que eu fiz'," diz a dermatologista Letycia Lopes, fundadora e diretora clínica da Veona Medicina e Estética Avançada, no Rio de Janeiro.

O objetivo deixou de ser apagar qualquer sinal da idade. Uma linha fina quando a pessoa sorri, uma pequena movimentação da testa ou o movimento da sobrancelha fazem parte da identidade daquele rosto. O que envelhece nem sempre é a presença de uma ruga, mas a perda de qualidade da pele, de sustentação e de luminosidade.

Para garantir que a testa mantenha sua naturalidade e a elevação das sobrancelhas continue fluida — evitando complicações como a queda palpebral ou o incômodo efeito "parênteses", caracterizado por rugas arqueadas logo acima das sobrancelhas —, o planejamento da aplicação de neurotoxinas como botox e Xeomin exige uma mudança radical de técnica.

"Examinar essa força e padrão de contração é essencial para direcionarmos a dose do tratamento bem como a profundidade de aplicação," diz Amanda. "Para mantermos a elevação das sobrancelhas, há que se reduzir a dose de toxina nas laterais da fronte. Para manter maior mobilidade na região frontal, reduz-se a dose por ponto, o que resulta em menor duração do bloqueio. A estratégia mais eficaz é equilibrar áreas de maior bloqueio, como a glabela, com doses moderadas ao redor dos olhos e acima das sobrancelhas, garantindo a movimentação ao mesmo tempo em que se bloqueiam músculos mais potentes."

A personalização do mapa de pontos torna-se a chave para impedir a rigidez, reconhecendo a função de suporte que a musculatura frontal exerce sobre a face.

"Não existe uma dose ou um mapa de aplicação que funcione igualmente para todo mundo. Antes de aplicar a toxina, observo como aquela pessoa movimenta a testa, a força dos músculos, a posição das sobrancelhas e até se ela utiliza o músculo frontal para manter os olhos mais abertos," diz Letycia.

Quando se quer preservar a naturalidade, a estratégia é reduzir a força muscular sem abolir todo o movimento. Na testa esse cuidado é ainda maior, porque o músculo frontal também ajuda a sustentar a sobrancelha. “Se relaxo demais determinadas regiões, posso pesar o olhar; se trato algumas fibras e deixo outras muito ativas, posso criar uma sobrancelha excessivamente arqueada e artificial. Naturalidade não é simplesmente colocar pouco produto: é saber exatamente onde colocar, quanto colocar e onde não colocar."

Com a redução do uso de doses paralisantes de neurotoxinas, a atenção volta-se para procedimentos que otimizam a qualidade e a densidade da derme sem afetar a mímica facial.

Tecnologias como os skinboosters, a radiofrequência com microagulhamento e os lasers fracionados ganham protagonismo ao redensificar o tecido e estimular o colágeno de forma estrutural.

"Uma pele mais tratada é considerada mais resistente à formação de linhas profundas. Nesse sentido, skinboosters e tecnologias como radiofrequência microagulhada, Fotona, Ultraformer e radiofrequência monopolar auxiliam muito na redensificação da pele," diz Amanda.

A toxina atua na contração muscular. Já um skinbooster melhora a hidratação e a textura sem modificar a expressão. “Em vez de tentar resolver toda ruga paralisando o músculo, eu posso melhorar a própria pele. Uma pele bonita não precisa ser uma pele imóvel," diz Letycia.

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter