Patrick Stewart, o ator que foi de Shakespeare ao espaço

Patrick Stewart, o ator que foi de Shakespeare ao espaço

O ator sai de cena e deixa como legado uma carreira que transitou com liberdade entre os clássicos do teatro e a ficção científica 

A grande jornada artística da vida de Patrick Stewart começou com William Shakespeare e chegou ao ápice do reconhecimento popular com Star Trek. 

A base para essa transição — tão extensa quanto inesperada — estava amparada na sólida bagagem do ator, que começou na trabalhar na Royal Shakespeare Company, há mais de seis décadas. 

Stewart era parte de uma geração formada nos palcos do Reino Unido que inclui nomes como Ben Kingsley, Helen Mirren e Glenda Jackson.

Um dos maiores atores contemporâneos, Stewart saiu de cena no último dia 28. Ele estava em casa, em Los Angeles, e foi vítima da doença de Alzheimer e da demência com corpos de Lewy. Ele tinha 86 anos.

Shakespeare era a maior de suas influências, mas não a única. A versatilidade de Stewart abarcava ainda o profundo conhecimento das obras de Samuel Beckett, Edward Albee, Harold Pinter e Arthur Miller. Todos lhe serviram como mestres e permitiram que ele levasse sua versatilidade artística para palcos e telas, ajudando autores, diretores e produtores. 

Poucos atores foram tão amplos e transitaram com tanta liberdade quanto ele, imprimindo originalidade e um padrão de qualidade único aos personagens que interpretava.

Patrick Stewart nasceu em 13 de julho de 1940, em Mirfield, uma pequena cidade industrial às margens de um rio, em West Yorkshire, filho de um oficial do Exército Britânico e de uma tecelã. Mais novo dos três filhos do casal, Stewart teve uma infância difícil, marcada pelas dificuldades financeiras e pela violência doméstica. 

O teatro o salvou. 

Em um texto escrito em 2009, o ator admitiu: “O palco era um lugar muito mais seguro para mim. Eu podia ser outra pessoa, em outro lugar, em outro tempo”.

A vida do jovem Stewart começou a mudar a partir dos 12 anos, quando foi chamado por um professor para fazer aulas de teatro e integrar os grupos locais. 

Aos 19 anos, já calvo, o que o obrigava a usar perucas para interpretar uma série de papéis, Stewart era um veterano nos palcos. Além da postura em cena, ele se destacava pela boa dicção e pela imponente voz de barítono.

Em maio de 1962, com pouco mais de 20 anos, Stewart se apresentou no Brasil. Foi quando a atriz Vivien Leigh incluiu São Paulo e Rio de Janeiro em uma turnê mundial da Old Vic Company. 

Na década seguinte, suas atuações ficariam ainda mais intensas com participações em telefilmes e minisséries da BBC. Em 1971, ele faria sua estreia na Broadway na montagem de Peter Brook para Sonho de uma Noite de Verão.

Mesmo com todo esse extenso currículo, Stewart era ainda pouco conhecido até o dia em que um produtor televisivo, que trabalhava no desenvolvimento de uma nova série de Star Trek, foi a uma das aulas que o ator ministrava sobre Shakespeare e o convidou para fazer um teste. 

Stewart reconheceria anos mais tarde que pouco sabia sobre a franquia intergaláctica, mas se sentiu estimulado pelo desafio. E ficou ainda mais surpreso ao ser escolhido. Sua principal motivação foi acreditar que o projeto representaria um compromisso de curta duração.

Stewart estava enganado. Ao aceitar interpretar o capitão Jean-Luc Picard em Star Trek: The Next Generation, o ator ficaria atrelado ao papel que se estenderia por sete temporadas na televisão, conquistaria 17 prêmios Emmy e geraria quatro longas-metragens derivados da franquia, além do retorno do personagem anos mais tarde na série Picard.

Rico e famoso, Stewart ficaria tão marcado como Picard que quase não era convidado para outros papéis de destaque no cinema. Uma das grandes exceções foi a franquia X-Men, em que ele interpretou o Professor Charles Xavier. Bem antes disso, ele também havia participado da versão cinematográfica de Duna (1984), dirigida por David Lynch. Em 2026, reprisou o papel do Professor Xavier em Vingadores: Doutor Destino. 

Entre 1995 e 2013, ele voltou à Broadway, novamente interpretando Shakespeare, com A Tempestade e Macbeth, que lhe rendeu uma indicação ao prêmio Tony pelo personagem-título. Além disso, se envolveu com as montagens de The Ride Down Mount Morgan, de Arthur Miller, The Caretaker, de Harold Pinter, e A Life in the Theater, de David Mamet.

Pela sua contribuição às artes cênicas, Stewart foi condecorado como Cavaleiro pela Rainha Elizabeth II em 2010, passando a ser chamado de Sir Patrick. 

Como o capitão que interpretou, Sir Patrick Stewart prezava pelo bom convívio e destacava-se pelo temperamento tranquilo e pela generosidade. 

Stewart foi casado três vezes e teve dois filhos, Daniel e Sophie. Desde 2013, vivia com a cantora e compositora Sunny Ozell.

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