O padre truqueiro

O padre truqueiro

Entre o blefe no baralho e a batina no altar, Padre Caio defende seu título no maior campeonato de truco do País

Em um País onde o truco é quase um dialeto próprio — passado de mão em mão entre o churrasco de domingo e a mesa de boteco —, a ideia de um sacerdote berrando "seis!" na base da pura encenação causa certo estranhamento. Mas para o pároco de Areias, cidadezinha pacata encravada no Vale do Paraíba, a fronteira entre a virtude e a malícia das cartas é muito mais simples do que parece.

"As pessoas confundem o blefe, que é algo natural e inerente ao jogo, com a mentira," diz. "A mentira cotidiana é uma conduta desonesta que ninguém aprova. No truco, o blefe é uma regra tácita, um recurso teatral permitido e que todo mundo usa. Fora da mesa, a vida real é outra coisa".

A intimidade que hoje surpreende quem o vê com o baralho na mão não nasceu em mesas de clube. Começou duas décadas atrás, na zona rural de Lorena. Aos 14 anos, Caio via o avô — carinhosamente chamado de Vô Tonho —, atravessar uma fase pessoal delicada e encontrou nas cartas uma forma de refúgio cotidiano. Todas as noites, os dois sentavam para jogar "de testa", um contra o outro. 

Para o menino que desde a infância brincava de celebrar missa e que aos 19 anos ingressaria no seminário, o jogo era afeto puro. "Aquilo fazia um bem enorme para ele. Ver o meu avô dar risada com a dinâmica do truco era especial. Poder reviver essa experiência tantos anos depois, fazendo-o sorrir de novo, é algo pelo qual agradeço a Deus todos os dias".

A virada da sala de casa para as telas de transmissão começou de forma despretensiosa. De férias da paróquia em setembro do ano passado, Padre Caio acompanhava uma live na internet quando viu o anúncio de inscrições para o Truco Masters. Inscreveu a dupla sem contar nada ao parceiro e precisou de quase duas semanas para criar a coragem de levar a proposta a julgamento em casa — afinal, o plano ainda precisava passar pelo crivo da avó.

Com a bênção da matriarca, os dois desceram a serra rumo a São Paulo sem qualquer vaidade. “Fui dirigindo e dizendo: 'Vô, a gente não é profissional, o ônus da vitória não é nosso. Vamos lá jogar como a gente faz em casa e tentar ganhar pelo menos uma partida para não fazer feio'”.

Sem avisar os fiéis da cidade e jogando com a leveza de quem não tinha nenhuma reputação a zelar, a dupla foi enfileirando adversários rodada após rodada. 

Não havia métodos sofisticados: a última vez que tinham pegado num baralho juntos fora meses antes, no Dia dos Pais, e todo o preparo resumia-se a três ou quatro variações de sinais combinadas de improviso. Em plena transmissão, os dois pareciam estar na sala de estar, completamente imunes à pressão dos refletores. Saíram do estúdio às duas da manhã com o troféu de campeões nos braços e, poucas horas depois, Padre Caio já vestia os paramentos em Areias para celebrar a missa matinal do domingo.

O título acabou criando uma ponte inesperada com um mundo que costuma passar longe dos bancos das igrejas. Sem sequer ter perfil em redes sociais antes da competição, o padre viu jovens começarem a abordá-lo com a mesma curiosidade: era ele mesmo o "padre do truco"? O rótulo abriu espaço para um diálogo mais horizontal, despido da formalidade austera que costuma cercar o clero. "É importante conhecer e circular por ambientes que não são estritamente religiosos. Mostra que é possível viver a vocação sem se isolar do lazer e da convivência humana sadia".

É essa história que agora volta aos holofotes neste mês, quando a grande final do Truco Masters desembarca em São Paulo com contornos de arena: transmissão na TV por assinatura pela N Sports, seletivas regionais concorridas e até softwares capazes de destrinchar métricas de jogadas, tudo na tentativa de colocar o truco na mesma prateleira esportiva do xadrez e do pôquer. E no centro desse espetáculo, como os rivais a serem batidos por qualquer um que sonhe com o troféu, estarão novamente o pároco e seu avô.

Os adversários chegam com sede de revanche e rotinas de treino de atletas dedicados. Do lado de Areias, porém, a estratégia segue fiel à simplicidade de sempre: Vô Tonho completa 79 anos em dezembro, o padre segue equilibrando a batina com os compromissos comunitários e o preparo para a decisão se resume a rever os vídeos antigos na TV da sala e ajustar os sinais combinados.

"O truco para nós nunca foi profissão, é hobby," diz o sacerdote. "Se pintar uma brecha, a gente traz o segundo caneco para casa. Mas, se você perguntar para o meu avô, a postura dele é claríssima: nós vamos lá para ganhar."

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