Elizabeth Holmes recorre à sétima arte para limpar sua barra

Elizabeth Holmes recorre à sétima arte para limpar sua barra

Condenada por fraudar investidores com sua empresa de biotecnologia, ex-empresária apela aos cinemas em uma última tentativa de redenção — e lota as sessões 

BOSTON — Reduzir Tudo Pode ser Visto como possivelmente o primeiro documentário a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme seria desconsiderar o filme, seu diretor e acima de tudo, o foco da trama: Elizabeth Holmes, a ex-empresária do Vale do Silício sentenciada a 11 anos de prisão por fraudar investidores, e seu marido, Billy Evans.

O filme nasceu do desejo do casal de mostrar ao mundo a verdade sobre Holmes, que mais de 10 anos após o fim de sua empresa, a Theranos, ainda acredita ser uma figura mal compreendida sem más intenções. 

Seu crime foi enganar investidores sobre a máquina no cerne da Theranos, que prometia fazer diversos exames de sangue com apenas algumas gotas do material, uma invenção que poderia mudar para sempre o setor de medicina diagnóstica. Porém, como sabemos, a máquina nunca funcionou mesmo após promessas em série de Holmes. 

Em 2022 ela foi sentenciada a 11 anos de prisão, que estavam marcados para começar na segunda metade de 2023. É aí que o filme começa, 34 dias antes da prisão.

Ao longo de três horas de filmes (você vai querer que ele fosse mais longo), não há um momento de certeza — nem para o espectador nem para o diretor, Nathan Fielder, conhecido por séries televisivas com tom absurdo como O Ensaio.

A verve de Nathan pelo absurdo e pelo desconfortável casou perfeitamente com o filme, que a todo momento vive uma tensão entre o que o diretor quer mostrar e o que o casal busca esconder. 

O conforto que Nathan sente em provocar desconforto é essencial para desarmar as narrativas tentando ser construídas pelo casal — mais especificamente Billy, que durante as três horas de filme se recusa a explicar de onde vem seu dinheiro, sua motivação em dar continuidade ao trabalho de Holmes ou porque começou a se relacionar com ela.

A dinâmica entre o casal e Nathan se torna ainda mais absurda quando dão a entender que convocaram o diretor sem ter ideia de seu trabalho. A única justificativa que oferecem para a escolha é de que ele é capaz de “ver as coisas de maneira diferente,” algo que acaba se tornando o tema central da história. 

Afinal, é possível ver o caso de Holmes de maneira diferente? É possível entender Holmes como algo além de uma mentirosa compulsiva que enganou até mesmo altos generais graduados do exército americano que faziam parte do board da Theranos?

Holmes e Billy tem certeza disso e chegam a afirmar que a empresária será lembrada por seu amor a sua família, e não por ter enganado o Vale do Silício por anos. O filme deixa pairar a dúvida e não se importa em não oferecer resposta.

O sentimento de desconforto e incerteza também acabou afetando Nathan, que durante mais de um mês viveu com o casal e colocou em xeque sua própria capacidade de isenção. Para me alongar no assunto, precisaria falar sobre a participação de Amanda Seyfried no filme, mas prefiro me conter nos spoilers. 

Explico apenas que a atriz atuou como Holmes na série The Dropout: A História de uma Fraude, e tem papel importante em questionar Nathan como um narrador isento mesmo após ele passar tanto tempo junto de Holmes.

A dúvida sobre a opinião de Nathan sobre Holmes também se torna um artifício para tentar entendê-la. Se ela “encantou” generais graduados e investidores no Vale do Silício, porque o diretor também não cairia no “canto da sereia”?

Essa inquietação vem acompanhada do olhar penetrante de Holmes, que vem sendo ressaltado desde as primeiras imagens divulgadas do filme, especificamente a cena onde ela tenta convencer Nathan de que “não tem nada a esconder” enquanto o fitava com seus olhos azuis arregalados que não piscavam e nem hesitavam. 

Se você se sentiu desconfortável com essa cena do trailer, se prepare: o filme faz questão de repetir o take, em planos fechados, de maneira a provocar incômodo.

Me alongar sobre o filme seria trazer para o texto imagens que dificilmente podem ser traduzidas em palavras. Não há palavras — mas às vezes risadas — para o desconforto que Nathan provoca, nem no mistério que rodeia Holmes. 

É também difícil decifrar as intenções de Billy, que em nenhum momento passa a confiança de estar dizendo a verdade — mas não deixa dúvidas de que ele acredita em 100% no que diz. 

Ao final das três horas, se alguém disser que saiu da sala com mais certezas do que dúvidas sobre o caso, provavelmente não entendeu o longa. 

O filme não foi feito para oferecer respostas — ainda que essa fosse a intenção original do casal — mas para colocar cores em um quadro em preto e branco que até então só havia sido pintado pela imprensa e pela série protagonizada por Amanda. 

O resultado final, porém, se aproxima mais a uma obra de Jackson Pollock do que a um quadro renascentista. Ao invés de imagens bem definidas, que não deixam dúvidas sobre o que está sendo representado, o espectador recebe uma obra cuja interpretação se torna a única maneira de fazer sentido àquilo que os olhos veem.

O longa tem previsão de estreia nos cinemas brasileiros em 26 de novembro.

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